Resumo do dia 24/07
Petróleo recua, mas o risco continua; Galípolo encara a curva e nova tarifa amplia a tensão comercial.
Os mercados ensaiam recuperação nesta sexta-feira depois da forte aversão ao risco do pregão anterior. O Brent recua para abaixo de US$ 100, os Treasuries aliviam e os futuros de Nova York avançam modestamente.
O movimento, porém, parece mais uma realização do que uma mudança de cenário. O Irã rejeitou uma proposta de cessar-fogo, os Estados Unidos completaram a 13ª noite de ataques e Donald Trump voltou a ameaçar intensificar a ofensiva. O mercado entra no fim de semana carregando risco elevado de novas manchetes.
No Brasil, Gabriel Galípolo e Dario Durigan falam na Expert XP em um momento decisivo para juros, fiscal e política comercial. O governo também reage à nova tarifa americana de 12,5%, enquanto o Datafolha pode voltar a movimentar o trade eleitoral.
PETRÓLEO RECUA, MAS O RISCO NÃO SAI DO PREÇO
O Brent alivia abaixo de US$ 100, mas a guerra continua sem saída diplomática.
O Brent cai mais de 3%, depois de ter ultrapassado US$ 100 no pregão anterior. Mesmo com a realização, a commodity ainda caminha para uma valorização semanal superior a 10%.
A tentativa de mediação perdeu força após o Irã rejeitar uma proposta de cessar-fogo levada a Teerã pelo primeiro-ministro do Iraque. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos concluíram a 13ª noite consecutiva de ataques e ameaçaram ampliar a ofensiva.
Comentário: A queda de hoje corrige excesso, não resolve o problema. O petróleo saiu de US$ 100, mas Ormuz e Bab el-Mandeb continuam ameaçados. O mercado pode chegar à segunda-feira em um cenário completamente diferente.
FIM DE SEMANA VIRA ATIVO DE RISCO
A posição de sexta-feira carrega dois dias de guerra sem mercado aberto.
Os investidores reduzem risco antes de um fim de semana no qual podem ocorrer:
- novos ataques americanos;
- retaliação iraniana;
- ofensivas dos houthis;
- interrupções adicionais no transporte de petróleo;
- novas tentativas de negociação.
Comentário: Hoje, o fechamento importa tanto quanto a abertura. O trader precisa considerar que uma posição carregada não está exposta apenas ao preço, está exposta à próxima manchete geopolítica.
GALÍPOLO ENTRA NO MOMENTO MAIS DIFÍCIL DA CURVA
O mercado ainda aposta em corte em agosto, mas já trata a reunião como possível fim do ciclo.
Gabriel Galípolo fala às 11h20 na Expert XP, depois de a disparada do petróleo provocar forte abertura dos juros futuros.
A curva ainda atribui maior probabilidade a um corte de 0,25 ponto percentual em agosto. Para setembro, porém, as apostas em nova redução praticamente desapareceram.
No fechamento anterior:
- DI Jan/27: 14,045%
- DI Jan/29: 14,675%
- DI Jan/31: 14,850%
- DI Jan/33: 14,880%
Comentário: O mercado quer uma resposta simples: o corte de agosto continua seguro? Se Galípolo reforçar cautela com petróleo e expectativas, a curva pode retirar ainda mais cortes. Se preservar o cenário de flexibilização, haverá espaço para correção do estresse.
PETRÓLEO MUDA A DISCUSSÃO SOBRE A SELIC
A questão já não é apenas cortar ou não cortar, é saber quando o ciclo termina.
A desaceleração da atividade e os indicadores recentes de inflação ainda sustentam a possibilidade de redução da Selic.
O problema é que a energia cara pode pressionar:
- combustíveis;
- fretes;
- expectativas de inflação;
- preços administrados;
- inflação de serviços por efeitos indiretos.
Comentário: A atividade olha para trás. O petróleo olha para frente. O Copom pode até entregar o corte de agosto, mas terá dificuldade para prometer continuidade diante de um choque energético dessa magnitude.
DURIGAN PRECISA VENDER CREDIBILIDADE FISCAL
O ministro fala à Faria Lima no mesmo dia do Relatório Bimestral.
Dario Durigan participa da Expert XP às 10h30. À tarde, o governo apresenta o Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias.
O mercado acompanhará:
- projeção para o resultado primário;
- necessidade de bloqueios ou contingenciamentos;
- evolução das receitas;
- trajetória da dívida;
- impacto dos programas de crédito e subsídios.
Durigan afirmou que, pelas contas do Tesouro, a dívida começaria a se estabilizar entre 2029 e 2030.
Comentário: O mercado não quer apenas uma data para a estabilização da dívida. Quer entender quais medidas fazem essa conta fechar e quanto dela depende de receita extraordinária, crédito público ou mudança de regra.
NOVA TARIFA ELEVA A PRESSÃO SOBRE O BRASIL
Depois dos 25%, os Estados Unidos acrescentam mais 12,5% sobre parte das exportações.
Washington anunciou tarifas de 10% a 12,5% sobre importações de aproximadamente 60 países, alegando falhas no combate ao trabalho forçado.
O Brasil ficou sujeito à alíquota máxima de 12,5%. Segundo o material de apoio, para parte relevante dos produtos a nova cobrança poderá ser cumulativa aos 25% anteriores, levando a tarifa total a 37,5%.
Uma lista de exceções preserva itens como café, petróleo, gás, fertilizantes, carnes, medicamentos e insumos estratégicos.
Comentário: A primeira rodada tinha impacto macro limitado. Com cumulatividade, o problema começa a mudar de escala para setores industriais diretamente expostos.
GOVERNO MUDA O TOM E ACIONA A RECIPROCIDADE
Brasília abandona a postura exclusivamente defensiva.
O governo classificou a nova tarifa como arbitrária e anunciou o início dos procedimentos para acionar a Lei da Reciprocidade, além de recorrer à Organização Mundial do Comércio.
Até então, a estratégia vinha priorizando negociação, linhas de crédito e abertura de novos mercados, evitando uma resposta comercial imediata.
Entidades empresariais pediram cautela para impedir uma escalada que aumente custos para a indústria brasileira.
Comentário: A reciprocidade pode fortalecer a posição negociadora do Brasil, mas também eleva o risco de retaliação em cadeia. Para o mercado, a diferença estará entre uma resposta técnica e calibrada ou uma guerra comercial aberta.
SUBSÍDIO À GASOLINA MOSTRA O CUSTO DOMÉSTICO DA GUERRA
O governo tenta impedir que o petróleo chegue imediatamente ao consumidor.
A Fazenda prorrogou por mais 30 dias o subsídio de R$ 0,44 por litro da gasolina.
A medida busca amortecer o impacto da disparada do petróleo sobre os preços domésticos. O mercado já discute se o diesel também exigirá reforço, diante da ampliação da defasagem em relação ao mercado internacional.
Comentário: O subsídio segura o IPCA no curto prazo, mas transfere o custo para o fiscal. A guerra começa a chegar ao Brasil por dois canais: inflação potencial e gasto público para evitá-la.
TREASURIES ALIVIAM, MAS CONTINUAM EM ZONA DE ESTRESSE
Os juros americanos recuam no dia, mas permanecem perto das máximas do ano.
O rendimento da Treasury de dez anos opera próximo de 4,68%, enquanto o título de 30 anos permanece perto dos maiores níveis desde 2007.
O petróleo acima dos níveis observados no início de julho aumentou as apostas de que o Fed poderá voltar a apertar a política monetária caso a inflação acelere.
Comentário: O alívio de hoje não representa uma volta ao cenário dovish. Enquanto o petróleo continuar elevado, qualquer dado forte de atividade pode reabrir rapidamente as taxas americanas.
PMIs TESTAM SE A ECONOMIA AGUENTA O CHOQUE
Atividade forte pode ser interpretada como mais combustível para os juros.
A agenda americana traz:
- 10h45: PMI industrial e de serviços;
- 11h00: vendas de casas novas.
O mercado espera expansão da atividade industrial americana em julho.
Comentário: Em outro ambiente, PMI forte seria positivo para a Bolsa. Hoje, crescimento resistente somado a petróleo caro pode ser lido como combinação inflacionária e pressionar novamente os Treasuries.
INTEL DEVOLVE ALGUM FÔLEGO AO TRADE DE CHIPS
Data centers sustentam a recuperação, apesar do prejuízo bilionário.
As ações da Intel avançaram no after-market depois de a companhia superar as estimativas de receita e apresentar guidance acima do esperado.
A receita cresceu 25%, apoiada por data centers, inteligência artificial e computadores pessoais. A empresa, porém, ainda registrou prejuízo líquido elevado.
Comentário: Intel mostra que a demanda por infraestrutura de IA continua viva. Mas, depois das quedas de Alphabet e Tesla, o mercado continuará cobrando geração de caixa e rentabilidade, não apenas crescimento de receita.
DATAFOLHA PODE MEXER NO TRADE ELEITORAL
Pesquisa sai em meio à crise da candidatura de Flávio e à tentativa de reunificação da direita.
Michelle Bolsonaro aceitou o pedido de desculpas de Flávio e defendeu a união do grupo político às vésperas da convenção do PL.
Ao mesmo tempo, o senador enfrenta investigação sobre supostas ligações com Daniel Vorcaro e dificuldade para consolidar alianças com partidos de centro.
A pesquisa Datafolha deve captar parte desses acontecimentos recentes.
Comentário: O mercado observará menos o número isolado e mais a tendência. Ampliação da vantagem de Lula tende a pesar sobre o trade de alternância política. Recuperação de Flávio pode reduzir parte do prêmio eleitoral.
ISA ENERGIA CONCLUI OFERTA DE R$ 1,2 BILHÃO
Oferta testa a profundidade do mercado de capitais em ambiente de volatilidade.
A ISA Energia Brasil fixou o preço da ação em R$ 27 e levantou aproximadamente R$ 1,2 bilhão em sua oferta subsequente.
A operação teve colocação integral do lote adicional.
Comentário: A conclusão da oferta mostra que ainda existe demanda por ativos de infraestrutura, mesmo com juros elevados. O comportamento da ação no pós-oferta será o teste sobre qualidade e preço dessa demanda.
RADAR CORPORATIVO
Eneva
Recebeu R$ 340 milhões da Vale pelo encerramento antecipado de contrato de fornecimento de GNL.
CSN Cimentos
A italiana Cementir avalia uma possível aquisição de ativos da companhia, segundo a imprensa.
Caixa Seguridade
Foi rebaixada para underweight pelo JPMorgan.
PicPay
Recebeu aprovação final do Banco Central para adquirir a seguradora digital Kovr por R$ 675 milhões.
Daycoval
Captou R$ 2,5 bilhões em letras financeiras, com demanda de R$ 6,1 bilhões.
AGENDA DO DIA
Brasil
- 10h30: Dario Durigan na Expert XP
- 11h20: Gabriel Galípolo na Expert XP
- 11h30: Leilão de swap cambial
- 15h00: Relatório de Receitas e Despesas
- Divulgação da pesquisa Datafolha
Estados Unidos
- 10h45: PMIs preliminares de julho
- 11h00: Vendas de casas novas
VISÃO PARA O TRADER
O alívio desta sexta-feira é real, mas ainda frágil.
- Petróleo: realização abaixo de US$ 100 não encerra o choque.
- DI curto: depende diretamente da fala de Galípolo.
- DI longo: fiscal, petróleo e eleição continuam pressionando.
- Dólar: pode aliviar com Treasuries, mas o risco de fim de semana limita posições.
- Ibovespa: Petrobras perde parte do suporte com a queda do Brent; cíclicas podem reagir se os juros fecharem.
- Nasdaq: Intel ajuda, mas o trauma de Alphabet e Tesla permanece.
- Exportadoras: nova tarifa exige análise empresa por empresa.
- Fiscal: Relatório Bimestral pode ser tão importante quanto Galípolo.
LEITURA DA MESA
Leitura: O petróleo caiu, mas o mercado ainda não comprou a paz. Galípolo terá de dizer se o corte de agosto sobrevive ao choque de energia, Durigan precisará mostrar como a dívida estabiliza e o governo começa a responder ao tarifaço. Para o trader, o recado é direto: hoje existe alívio no preço, mas risco demais para chamar de tranquilidade.
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