Resumo do dia 06/08
Copom corta, mas não entrega setembro; Bradesco testa recuperação e Petrobras assume o centro do pregão.
O Banco Central reduziu a Selic para 14%, conforme esperado, mas evitou transformar a melhora da inflação em promessa de novos cortes. O comunicado foi mais claro, dependente dos dados e marginalmente mais duro ao reforçar a desancoragem das expectativas e a assimetria altista dos riscos.
A curva ainda aposta majoritariamente em novo corte de 0,25 ponto em setembro, mas essa posição agora precisará sobreviver aos próximos dados de inflação, atividade, emprego e câmbio.
Na Bolsa, Bradesco entrega recuperação gradual, porém com inadimplência maior. Petrobras divulga hoje o principal balanço da semana, enquanto petróleo, Tesouro e ações de tecnologia completam o radar.
COPOM CORTA, MAS RECUSA O PILOTO AUTOMÁTICO
A Selic caiu para 14%; setembro continua sem garantia.
O Copom entregou o corte de 0,25 ponto, reconheceu a moderação da atividade e a melhora da inflação subjacente, mas destacou que acompanha “com atenção” a desancoragem adicional das expectativas.
O balanço de riscos continua assimétrico para cima e a política monetária deverá permanecer em nível de restrição considerado adequado.
Comentário: O comunicado não fechou a porta para setembro, mas também não entregou a chave. O BC quer ver continuidade da desinflação antes de validar outro corte. A partir de agora, dado fraco ajuda; expectativa alta atrapalha.
SETEMBRO SEGUE VIVO, MAS MAIS CARO
A curva ainda aposta em corte, embora o BC tenha evitado qualquer sinalização.
No fechamento anterior, o mercado atribuía aproximadamente:
70% de chance de corte de 0,25 ponto;
23% de manutenção;
7% de corte de 0,50 ponto.
Itaú, Santander, Bradesco e Inter ainda enxergam espaço para Selic em 13,75%. Outras instituições preferem aguardar a ata e os próximos indicadores.
Comentário: A posição comprada em DI curto continua defensável, mas perdeu conforto. O comunicado colocou o ônus da prova sobre quem aposta na continuidade do ciclo.
TESOURO TESTA A PONTA LONGA APÓS O COPOM
O BC corta o curto; o governo precisa vender o longo.
O Tesouro oferece LTNs com vencimentos em 2027, 2028 e 2030, além de NTN-Fs para 2031, 2033 e 2037.
O leilão ocorre com a curva dividida entre inflação corrente melhor e preocupação persistente com fiscal, eleição e expectativas de longo prazo.
Comentário: Demanda forte pode limitar a abertura dos DIs longos. Colocação fraca reforçará que cortar a Selic não significa reduzir automaticamente o prêmio exigido para financiar o governo.
BRADESCO ENTREGA LUCRO, MAS A INADIMPLÊNCIA SOBE
A recuperação continua, porém o crédito ainda não saiu da sala.
O Bradesco registrou lucro recorrente de R$ 7,05 bilhões, alta de 16,2% em um ano e em linha com as estimativas.
O ROAE avançou para 16,2%, com melhora da margem financeira e crescimento da carteira. A inadimplência acima de 90 dias, porém, subiu para 4,3%, pressionada por pessoas físicas e pequenas empresas.
Comentário: O lucro confirma a recuperação. A inadimplência limita a comemoração. Para sustentar uma reprecificação, o banco precisa melhorar rentabilidade sem comprar crescimento por meio de risco de crédito.
PETROBRAS PRECISA TRANSFORMAR PRODUÇÃO EM CAIXA
O principal balanço da semana chega com expectativa de novos recordes.
O consenso aponta aproximadamente:
Lucro de US$ 8,2 bilhões;
Ebitda de US$ 17,4 bilhões;
Receita de US$ 36,3 bilhões;
Dividendos próximos de US$ 4 bilhões.
Produção maior e preços elevados durante o trimestre sustentam o resultado, enquanto imposto de exportação e recebíveis ligados a subsídios podem pressionar o caixa.
Comentário: O mercado já conhece o volume forte. A reação dependerá de geração de caixa, dividendos, capex e disciplina de capital. Resultado recorde sem distribuição suficiente pode gerar leitura morna.
ORMUZ AVANÇA; MAR VERMELHO MANTÉM O RISCO
Irã e Omã fecham uma rota, mas os houthis deixam outra aberta para a volatilidade.
Irã e Omã concluíram um acordo sobre uma rota de transporte pelo Estreito de Ormuz, aumentando a perspectiva de recuperação do fluxo de petróleo.
Ao mesmo tempo, os houthis intensificaram ameaças e ataques contra embarcações sauditas no Mar Vermelho.
O Brent permanece abaixo de US$ 80, acumulando forte queda na semana.
Comentário: O mercado está pagando mais pela diplomacia em Ormuz do que pelo conflito no Mar Vermelho. Mas rota aberta não significa guerra encerrada. O risco de manchete segue vivo para petróleo, juros e Petrobras.
NASDAQ PERDE FORÇA COM CHIPS E ALAVANCAGEM
A inteligência artificial continua forte, mas o risco financeiro reaparece.
O futuro do Nasdaq recua com pressão sobre fabricantes de chips.
Jamie Dimon alertou que a alavancagem no mercado permanece elevada, enquanto investidores voltam a questionar valuations e investimentos excessivos em inteligência artificial.
Comentário: A tese de IA não acabou. A tolerância ao excesso diminuiu. Com múltiplos altos, qualquer redução de guidance ou aumento de capex pode provocar movimentos desproporcionais.
EMPREGO FRACO NOS EUA PREPARA O PAYROLL
O ADP decepcionou, mas o Fed ainda está mais preocupado com inflação.
O setor privado americano criou 44 mil vagas em julho, abaixo das 75 mil esperadas.
Mesmo assim, dirigentes do Fed continuam destacando que a inflação representa o principal risco e que a instituição está ficando sem margem para esperar caso os preços não desacelerem.
Comentário: Emprego fraco ajuda os Treasuries. Mas o mercado só abandonará a tese de aperto se atividade e inflação desacelerarem juntas. O payroll de amanhã será o próximo teste.
RADAR CORPORATIVO
Banco Inter
Lucro de R$ 421 milhões, alta de 34%, com ROE de 16,3%.
Totvs
Receita cresceu 13,3% e Ebitda ajustado avançou 22,5%.
Engie Brasil
Lucro de R$ 1,96 bilhão e aprovação de R$ 770,8 milhões em dividendos.
Brava Energia
Ecopetrol adquiriu o controle por meio de operação de R$ 2,67 bilhões.
Braskem
Rating rebaixado pela Moody’s para Ca, com perspectiva negativa.
Smart Fit
Receita cresceu 22% e Ebitda atingiu recorde.
AGENDA DO DIA
09h30: Pedidos de auxílio-desemprego nos EUA.
11h30: Rolagem de swap cambial.
Leilão de LTN e NTN-F.
15h00: Balança comercial de julho.
17h30: Discurso de Alberto Musalem, do Fed.
Após o fechamento: Petrobras, Renner, Localiza, Assaí, Magazine Luiza, Hypera e outras companhias.
VISÃO PARA O TRADER
DI curto: pode devolver parte do fechamento com o comunicado levemente hawkish.
DI longo: leilão do Tesouro, fiscal e eleição continuam dominando.
Dólar: BC dependente dos dados reduz o espaço para queda agressiva.
Bradesco: lucro ajuda; inadimplência limita.
Petrobras: caixa e dividendos serão mais importantes que o lucro.
Petróleo: acordo em Ormuz reduz prêmio, mas houthis mantêm volatilidade.
Nasdaq: chips pressionados e valuation novamente em debate.
Ibovespa: bancos e Petrobras concentram os principais gatilhos.
LEITURA DA MESA
O Copom cortou a Selic, melhorou a comunicação e recusou contratar setembro. Bradesco mostra recuperação com inadimplência maior, enquanto Petrobras precisa transformar produção recorde em caixa e dividendos. Hoje, o curto negocia o tom do BC, o longo negocia o Tesouro e a Bolsa espera a resposta da estatal.
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