Copom corta com a porta aberta, petróleo testa acordo em Ormuz e eleição aperta novamente.
O mercado chega ao dia do Copom sem grande dúvida sobre a decisão: a Selic deve cair 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. O verdadeiro ativo da noite será o comunicado.
A produção industrial despencou 1,8% em junho, o petróleo voltou para baixo de US$ 80 e a inflação corrente perdeu força. O Banco Central ganhou argumentos para cortar. Mas fiscal, expectativas desancoradas e eleição apertada impedem uma mensagem abertamente dovish.
Na política, a pesquisa Genial/Quaest mostra Lula com 44% e Flávio Bolsonaro com 39% no segundo turno. A diferença caiu de oito para cinco pontos, enquanto Flávio anuncia hoje seu candidato a vice em meio à dificuldade de ampliar alianças.
No exterior, o mercado aguarda um possível acordo temporário para a navegação em Ormuz, mas os houthis voltaram a ameaçar o Mar Vermelho. Wall Street opera com cautela antes dos dados de emprego e serviços dos Estados Unidos.
A redução para 14% está no preço. O comunicado decidirá o trade de setembro.
O consenso praticamente unânime aponta para corte de 0,25 ponto percentual da Selic.
O Banco Central chega à reunião com um conjunto mais favorável de informações:
A expectativa é de que o Copom reconheça essa melhora, mas mantenha cautela com as projeções de inflação acima da meta e com o balanço de riscos ainda inclinado para cima.
Comentário: O corte não move o mercado porque já está contratado. O preço estará na escolha das palavras: "cautela", "dependência dos dados", "assimetria" e "expectativas" podem valer mais que os 25 pontos-base.
Depois de um comunicado confuso, menos texto pode gerar mais clareza.
Analistas esperam que o Copom retire trechos sobre trajetórias alternativas para a taxa de juros, considerados pouco objetivos na última decisão.
A tendência é de um comunicado mais simples, reconhecendo a melhora dos dados sem oferecer guidance explícito para setembro.
O BC deve preservar todas as opções: novo corte, pausa ou mudança de estratégia caso o cenário volte a piorar.
Comentário: Não sinalizar setembro não significa fechar a porta. Significa obrigar o mercado a construir a próxima decisão com base nos dados, exatamente o que o Banco Central precisa em um cenário eleitoral, fiscal e geopolítico instável.
A curva precifica extensão parcial do ciclo antes de ouvir o Copom.
Os DIs já incorporam a possibilidade de um novo corte em setembro.
A tese ganhou força com a sequência de surpresas baixistas da inflação, o recuo da atividade e a queda do petróleo. Mas as expectativas de longo prazo continuam acima da meta, com atenção especial ao IPCA projetado para 2028.
Parte dos economistas prevê Selic em 13,75% em setembro. Outros esperam pausa prolongada após a decisão de hoje.
Comentário: Comunicado neutro mantém setembro vivo. Comunicado mais duro pode retirar rapidamente essa aposta. O trader não deve confundir ausência de guidance com autorização automática para comprar toda a ponta curta.
Produção cai 1,8%, três vezes mais que o esperado.
A produção industrial brasileira recuou 1,8% em junho, mostrando desaceleração muito mais intensa que a prevista pelo mercado.
O resultado reforça que a política monetária restritiva finalmente atingiu a atividade econômica.
A fraqueza ocorre junto com sinais de moderação do emprego, menor pressão salarial e inflação corrente mais benigna.
Comentário: O dado ajuda o Copom hoje, mas aumenta o desafio para os próximos meses. Cortar pouco demais pode aprofundar a desaceleração. Cortar rápido demais, com fiscal frágil e expectativas elevadas, pode devolver pressão ao câmbio e à inflação.
A atividade pede alívio; as contas públicas exigem cautela.
Mesmo com petróleo e indústria favorecendo o fechamento da curva, os juros médios e longos continuaram pressionados pelo risco fiscal e eleitoral.
O mercado teme que o avanço do calendário político amplie despesas, subsídios e medidas de estímulo sem uma compensação estrutural.
Também permanece a discussão sobre mudanças no arcabouço fiscal e sobre a capacidade do governo de controlar gastos obrigatórios.
Comentário: O Copom consegue reduzir a Selic. Não consegue resolver a dívida pública. Enquanto o fiscal permanecer sem direção clara, a ponta longa continuará cobrando prêmio, mesmo que a inflação mensal melhore.
A possível reabertura de Ormuz retirou uma parcela importante do prêmio de guerra.
O Brent fechou abaixo de US$ 80 após dois pregões de forte queda, apoiado pela expectativa de um acordo para restabelecer a navegação pelo Estreito de Ormuz.
Estados Unidos, Irã e Omã podem anunciar um protocolo temporário de 60 dias para organizar o fluxo marítimo.
O acordo teria como prioridade reabrir a principal rota de exportação do Golfo Pérsico, deixando temas mais complexos, como o programa nuclear iraniano, para uma segunda etapa.
Comentário: O mercado retirou prêmio porque a oferta pode voltar a circular. Mas um acordo de navegação não é um acordo de paz. A queda reduz a inflação esperada, porém continua vulnerável a qualquer rompimento diplomático.
O petróleo volta a subir com novas ameaças no Mar Vermelho.
Os houthis do Iêmen retomaram as ameaças contra embarcações no Mar Vermelho, recolocando o Estreito de Bab el-Mandeb no radar.
Mesmo que Ormuz seja parcialmente normalizado, problemas no Mar Vermelho ainda podem elevar fretes, seguros e tempo de transporte.
A produção da Opep cresceu em julho, mas segue abaixo dos níveis anteriores à guerra devido às dificuldades logísticas e aos bloqueios.
Comentário: A inflação energética depende de dois fatores: produção e transporte. Não adianta haver petróleo disponível se o custo e o risco para movê-lo continuarem elevados.
Depois do enfraquecimento das vagas abertas, o emprego privado pode mudar setembro.
A pesquisa ADP deve mostrar criação de aproximadamente 75 mil vagas no setor privado americano em julho.
O dado chega depois de o relatório JOLTS indicar redução mais intensa nas vagas abertas.
Também serão divulgados os PMIs e o ISM de serviços, importante termômetro do maior segmento da economia dos Estados Unidos.
Dirigentes do Fed continuam divididos entre a necessidade de combater a inflação e o risco de apertar demais uma economia que começa a perder velocidade.
Comentário: Emprego fraco ajuda os Treasuries e reduz a pressão por alta imediata. Mas inflação de serviços persistente pode neutralizar essa leitura. O Fed precisa ver desaceleração sem perder controle sobre os preços.
A vantagem cai de oito para cinco pontos no segundo turno.
A pesquisa Genial/Quaest mostra:
No levantamento anterior, a vantagem do presidente era de oito pontos.
A aprovação do governo aparece em 48%, enquanto a desaprovação está em 47%, indicando estabilidade na avaliação da administração.
Segundo a Quaest, a recuperação de Flávio está associada à reorganização do eleitorado antipetista e à redução de conflitos internos na direita.
Comentário: Lula ainda lidera, mas a margem diminuiu. Para o mercado, uma eleição mais competitiva significa maior sensibilidade a discursos fiscais, alianças, propostas econômicas e relações internacionais.
A chapa será apresentada antes de uma coalizão ampla estar construída.
Flávio Bolsonaro anuncia hoje, às 11h, seu candidato a vice-presidente.
União Brasil, Podemos e Republicanos formalizaram neutralidade, reduzindo as opções para uma composição com partidos de centro.
Rogério Marinho aparece entre os nomes mencionados, enquanto a campanha também avaliava a escolha de uma mulher para ampliar o diálogo com o eleitorado feminino.
Comentário: A definição pode organizar a campanha, mas não resolve a ausência de alianças. Uma chapa competitiva precisa de votos e de estrutura política. Flávio está recuperando o primeiro ativo, mas ainda precisa construir o segundo.
Revogação de visto e acusações de interferência aumentam o risco político.
Os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora brasileira em Washington, classificando a decisão como resposta recíproca a medidas adotadas pelo Brasil.
O governo brasileiro repudiou a ação e acusou Washington de promover uma escalada hostil com possível interesse na eleição presidencial.
A tensão já havia pressionado dólar e juros futuros, principalmente nos vencimentos médios e longos.
Comentário: O impacto direto ainda é diplomático, mas o mercado monitora três canais: comércio, sanções e interferência na campanha eleitoral. Quanto mais o conflito avançar para esses campos, maior tende a ser o prêmio exigido nos ativos brasileiros.