Resumo do dia 08/07
Petróleo recoloca inflação no radar enquanto o mercado espera a ata do Fed.
A geopolítica voltou ao centro do mercado. Os ataques a embarcações no Estreito de Ormuz levaram os EUA a endurecer novamente as sanções contra o Irã, encerrando na prática a trégua que havia reduzido o prêmio de risco nas últimas semanas. O petróleo dispara mais de 5%, os Treasuries voltam a abrir e o mercado passa a questionar novamente o espaço para cortes de juros. No Brasil, o foco continua na negociação das tarifas com os EUA e na retomada da rolagem dos swaps cambiais pelo Banco Central.
Geopolítica volta ao centro do mercado
Os EUA atacaram mais de 80 alvos no Irã e revogaram a autorização que permitia a comercialização de petróleo iraniano. Em resposta, Teerã prometeu retaliar e voltou a endurecer o discurso sobre o controle do Estreito de Ormuz, principal rota do petróleo mundial. O Brent sobe cerca de 5%, voltando para a região de US$ 78.
Comentário: O mercado vinha retirando rapidamente o prêmio de risco geopolítico das commodities. O choque de hoje lembra que basta uma interrupção relevante em Ormuz para a inflação global voltar imediatamente para o centro das decisões dos bancos centrais.
Ata do Fed ganha importância muito maior
Às 15h será divulgada a ata da reunião de junho do Federal Reserve. A expectativa é de um documento mais duro ("hawkish"), reforçando a preocupação com inflação persistente, principalmente após a alta do petróleo.
Comentário: Se a guerra recolocar energia na inflação, qualquer expectativa de cortes rápidos de juros perde força. A ata passa a ser ainda mais importante porque mostrará até onde o Fed está disposto a tolerar uma inflação elevada.
Treasuries sobem e o dólar ganha força
Com o petróleo pressionando as expectativas de inflação, os yields dos Treasuries voltam a subir e o dólar se fortalece globalmente.
Comentário: Esse é o movimento clássico de aversão ao risco: petróleo sobe, juros americanos sobem, dólar sobe e ativos de risco sofrem pressão.
Tecnologia segue em correção
Após a forte liquidação dos semicondutores ontem, o setor continua pressionado. A Nvidia perdeu cerca de US$ 1 trilhão em valor de mercado desde as máximas da euforia da IA, enquanto investidores migraram parte das posições para empresas chinesas de tecnologia.
Comentário: O mercado continua comprando inteligência artificial, mas já não aceita qualquer valuation. O fluxo está ficando muito mais seletivo.
Brasil segue negociando o tarifaço
Após a audiência do USTR, o governo brasileiro criticou o discurso de Flávio Bolsonaro e afirmou que continua negociando diretamente com técnicos americanos para tentar evitar as tarifas previstas para 15 de julho.
Comentário: O mercado continua tratando esse tema como um risco político e comercial. Até a decisão final, qualquer manchete pode gerar volatilidade, principalmente em empresas exportadoras.
BC retoma a rolagem dos swaps
O Banco Central inicia hoje a rolagem dos contratos de swap cambial que vencem em agosto. O estoque é de aproximadamente 700 mil contratos.
Comentário: Depois das operações de "casadão" das últimas semanas, o BC volta à rotina operacional. O mercado continuará observando qualquer atuação adicional caso a volatilidade no câmbio aumente.
NTN-B continua no radar
O Tesouro voltou a sinalizar preocupação com o funcionamento do mercado de títulos indexados à inflação e admite discutir mudanças estruturais nos papéis incentivados.
Comentário: A preocupação continua sendo liquidez. Enquanto os juros longos permanecerem pressionados, a estratégia deverá continuar sendo reduzir ofertas e preservar o funcionamento da curva.
Petróleo muda a leitura para o Copom
A disparada do petróleo acontece justamente quando o mercado começava a aumentar as apostas em novos cortes da Selic.
Comentário: Ainda é cedo para mudar completamente o cenário, mas, se o petróleo permanecer elevado por vários dias, a discussão sobre novos cortes perde força. Energia continua sendo um dos principais canais de transmissão para a inflação.
Empresas
Porto Sudeste pode movimentar US$ 5 bilhões
BlackRock (via GIP) e Stonepeak estudam propostas pelo Porto Sudeste, um dos maiores ativos de infraestrutura logística do país.
Petrobras
A companhia divulga a produção do segundo trimestre em 28 de julho e o balanço em 6 de agosto.
Vale
Após a saída de Daniel Stieler do conselho, o mercado acompanha a definição da sucessão e os possíveis impactos sobre a governança.
Agenda do dia
Brasil
09h00: Reunião do CNPE
11h30: Leilão de swap cambial (BC)
14h30: Fluxo cambial semanal
Despachos internos de Gabriel Galípolo
Estados Unidos
11h00: Estoques no atacado
11h30: Estoques de petróleo
15h00: Ata do FOMC (principal evento do dia)
O que realmente importa para o trader
O mercado voltou a negociar inflação, não apenas geopolítica.
Se o petróleo continuar subindo, os juros americanos tendem a permanecer elevados por mais tempo e isso muda a precificação global de ativos.
A ata do Fed deixa de ser apenas um documento de confirmação e passa a ser decisiva para entender se o banco central americano ainda vê espaço para aliviar a política monetária ou se o choque do petróleo pode atrasar esse processo.
Hoje, o mercado começa olhando para Ormuz. Mas termina olhando para o Fed.