Resumo do dia 10/07
IPCA testa apostas de corte da Selic enquanto geopolítica perde força e mercado volta aos fundamentos.
Depois de uma semana dominada pelo conflito entre Estados Unidos e Irã, os investidores encerram a semana voltando o foco para a inflação brasileira. A expectativa é de desaceleração do IPCA de junho, mas ainda acima do teto da meta, mantendo o Banco Central em posição delicada. No exterior, o petróleo devolve parte do prêmio de guerra na expectativa de retomada das negociações entre Washington e Teerã, enquanto as bolsas operam com cautela após uma semana extremamente volátil.
IPCA é o grande evento do dia
O IBGE divulga o IPCA de junho, com expectativa de alta de 0,31%, abaixo dos 0,58% registrados em maio.
Apesar da desaceleração mensal, a inflação acumulada em 12 meses deve subir para aproximadamente 4,80%, permanecendo acima do teto da meta pelo segundo mês consecutivo.
A expectativa é de alívio em alimentos e combustíveis, parcialmente compensado pela alta das passagens aéreas. Os núcleos também devem mostrar desaceleração.
Comentário: O mercado não está olhando apenas o número cheio. A qualidade da inflação será decisiva. Um IPCA mais disseminado reduz o espaço para cortes da Selic. Já uma desaceleração consistente fortalece a expectativa de novo corte de 25 pontos-base em agosto.
Mercado reduz o prêmio de guerra
Apesar dos novos ataques entre EUA e Irã, os investidores passaram a apostar que a diplomacia prevalecerá.
Relatos de mediação conduzida por Catar e Paquistão reforçaram a expectativa de retomada das negociações entre Washington e Teerã.
O Brent recuou para a região de US$ 76, mesmo com o tráfego marítimo em Ormuz ainda bastante reduzido.
Comentário: O mercado está precificando que nenhum dos lados suporta economicamente uma guerra prolongada. Isso explica a queda do petróleo, dos juros globais e do dólar frente às moedas emergentes.
Petróleo continua sendo o principal risco para a inflação
Mesmo com a redução do prêmio de guerra, o governo brasileiro decidiu manter por mais 60 dias o imposto de exportação sobre petróleo.
Também manteve os subsídios aos combustíveis enquanto monitora diariamente a evolução do conflito.
Comentário: A estratégia mostra que Brasília ainda trabalha com cenário de elevada incerteza. Qualquer nova escalada no Oriente Médio pode voltar a contaminar rapidamente inflação, combustíveis e expectativas para juros.
Selic segue dependendo da inflação
A desaceleração recente da atividade econômica, produção industrial, varejo e mercado de trabalho consolidou a expectativa de corte da Selic na próxima reunião.
Ontem, os DIs voltaram a fechar em queda, acompanhando o alívio internacional.
Comentário: Hoje o mercado poderá recalibrar completamente essa expectativa. Um IPCA benigno fortalece o cenário de flexibilização. Um número acima do esperado pode devolver prêmio para toda a curva de juros.
Mercado global volta a respirar
Os futuros americanos operam próximos da estabilidade.
O dólar perde força pelo terceiro dia consecutivo e os rendimentos dos Treasuries recuam.
Ao mesmo tempo, o sucesso da listagem da SK Hynix reforça que o fluxo para inteligência artificial permanece extremamente forte.
Comentário: A geopolítica continua relevante, mas os investidores voltaram a comprar tecnologia sempre que a tensão diminui. O tema IA continua sendo o principal vetor estrutural dos mercados globais.
Política segue em segundo plano
Flávio Bolsonaro participa de agenda política no Ceará, estado que se tornou símbolo do atrito com Michelle Bolsonaro.
Enquanto isso, Michelle amplia sua atuação política própria e Jair Bolsonaro mantém o incentivo para sua candidatura ao Senado pelo Distrito Federal.
Comentário: O mercado continua acompanhando o ambiente eleitoral, mas o foco permanece muito mais concentrado em inflação, juros e tarifas comerciais do que propriamente na disputa política.
Governo mantém cautela com o petróleo
Além de manter o imposto sobre exportação da commodity, o governo também prepara novas medidas estruturais para reduzir a dependência da gasolina, incluindo o aumento da mistura obrigatória de etanol.
Comentário: A estratégia busca reduzir a vulnerabilidade da economia brasileira aos choques internacionais de petróleo, mas seus efeitos aparecem apenas no médio prazo.
Empresas
Azul mira desalavancagem
A companhia reafirmou o objetivo de reduzir sua alavancagem para abaixo de 1,5 vez até 2029.
Comentário: O foco permanece na reestruturação financeira e na geração de caixa.
Oi alerta sobre risco operacional
A empresa informou que poderá ficar sem recursos para manter suas operações a partir de agosto caso não consiga novos aportes.
Comentário: O comunicado reforça a deterioração financeira da companhia e aumenta a pressão sobre o processo de recuperação.
Sigma Lithium supera guidance
A empresa produziu cerca de 35 mil toneladas no segundo trimestre, acima das projeções anteriormente divulgadas.
Comentário: O resultado reforça a consistência operacional da companhia em um mercado que continua acompanhando de perto o setor de minerais críticos.
Agenda do dia
IPCA de junho (IBGE).
Leilão de swap cambial do Banco Central.
Relatório mensal de petróleo da Agência Internacional de Energia (AIE).
IPC da Alemanha.
Dados de inflação de São Paulo (FIPE).
Monitoramento das negociações entre EUA e Irã.
Comentário final
Depois de uma semana em que o mercado negociou guerra praticamente em tempo real, hoje o foco volta para aquilo que realmente define a política monetária brasileira: a inflação. Se o IPCA confirmar desaceleração com melhora dos núcleos, aumenta a confiança em um novo corte da Selic. Mas a geopolítica continua sendo a variável capaz de mudar rapidamente esse cenário, principalmente por meio do comportamento do petróleo.
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