IA retoma o comando, petróleo fecha julho em alta e Santander prepara um rali na B3.
O mercado chega ao último pregão de julho com uma troca clara de liderança. A guerra no Oriente Médio continua presente, mas deixa de monopolizar os preços. O protagonismo volta para os balanços, a inteligência artificial e a política monetária.
Amazon e Microsoft mostraram que o investimento bilionário em IA pode produzir receita, escala e lucro. O resultado é uma retomada global do trade de tecnologia, com forte reação dos fabricantes de chips. A Apple, porém, lembra que bons números não bastam quando o guidance decepciona.
No Brasil, o dólar recua para perto de R$ 5,06, os juros futuros ampliam as apostas em corte da Selic e o Ibovespa recebe três gatilhos importantes: a oferta da matriz pelo Santander Brasil, o balanço da Vale e a investigação autorizada contra Lulinha.
O mercado retomou a tese de IA, mas agora exige retorno financeiro.
As bolsas globais avançam com a recuperação das empresas de tecnologia e semicondutores.
A Amazon superou com folga as estimativas, apoiada pelo crescimento de aproximadamente 20% da AWS e pela demanda por serviços ligados à inteligência artificial. A companhia também anunciou a intenção de investir cerca de US$ 200 bilhões em 2026, principalmente em infraestrutura tecnológica.
As ações subiram mais de 9% no after-market, reforçando o movimento iniciado pela Microsoft, que havia disparado após mostrar crescimento forte do Azure e maior clareza na monetização dos investimentos em IA.
Comentário: A tese de inteligência artificial não morreu. Ela ficou mais seletiva.
O mercado voltou a pagar por capex elevado, desde que venha acompanhado de receita, ganho de escala e geração de caixa.
O investidor voltou para a tecnologia, mas não voltou a entregar cheque em branco.
Os valuations ficaram mais razoáveis após a correção recente, mas ainda não podem ser considerados baratos.
A recuperação atual concentra-se nas empresas capazes de demonstrar retorno sobre os investimentos realizados. Negócios que apresentam apenas expansão de despesas continuam sujeitos a quedas fortes.
A Coreia do Sul registrou um movimento extraordinário, com forte valorização do Kospi e alta da SK Hynix até o limite diário, impulsionada pela retomada do interesse por chips de memória utilizados em inteligência artificial.
Comentário: O próximo estágio do trade não será "comprar qualquer empresa ligada à IA".
Será separar quem vende infraestrutura, quem captura margem e quem apenas aumenta a conta de investimentos.
Nuvem cresce, IA acelera e o investimento começa a encontrar receita.
A AWS voltou a apresentar expansão robusta, apoiada pelo aumento da demanda por computação, armazenamento e treinamento de modelos de inteligência artificial.
O resultado mostrou que a Amazon consegue elevar investimentos sem destruir imediatamente a rentabilidade do grupo.
A companhia agora se junta à Microsoft entre as empresas que conseguiram convencer o mercado de que os gastos com IA possuem um caminho claro de monetização.
Comentário: A Amazon não foi premiada por anunciar US$ 200 bilhões em investimentos.
Foi premiada porque mostrou que existe demanda suficiente para começar a pagar essa conta.
O balanço foi bom; o futuro apresentado ao mercado não foi.
A Apple apresentou lucro e receita acima das estimativas, com crescimento expressivo nas vendas do iPhone e avanço de dois dígitos em diferentes áreas.
Mesmo assim, as ações recuaram mais de 6% no after-market, pressionadas por uma projeção mais fraca para o trimestre seguinte e por sinais de aumento dos custos de memória e outros componentes.
Comentário: Em um mercado exigente, o passado não sustenta o preço sozinho.
A Apple bateu as estimativas, mas não entregou confiança suficiente de que conseguirá manter margens e crescimento no próximo trimestre.
Ormuz mostra sinais de movimento, mas a guerra mantém o prêmio no barril.
O Brent opera na região de US$ 89 por barril e caminha para encerrar julho com valorização próxima de 20%.
O mercado identificou aumento do transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz nos últimos dias, o que ajuda a conter o preço. Ainda assim, a passagem permanece sob restrições e o risco sobre Bab el-Mandeb continua elevado.
A Arábia Saudita anunciou uma coalizão de 14 países destinada a proteger a navegação no Mar Vermelho, enquanto os houthis prometeram responder a qualquer ofensiva.
Comentário: A guerra deixou de produzir choque novo todos os dias, mas ainda não deixou o preço.
Enquanto Ormuz não voltar ao funcionamento normal, o petróleo continuará vulnerável a saltos rápidos provocados por manchetes.
O mercado incorporou a guerra à rotina e voltou a negociar fundamentos.
Após meses de tensão, os investidores passaram a reagir menos a ataques recorrentes que não alterem de forma relevante o fornecimento de energia.
Isso abriu espaço para que balanços, inflação, juros e dados de atividade voltem a determinar a direção dos ativos.
O risco geopolítico continua alto, mas agora precisa produzir interrupção adicional da oferta para recuperar todo o protagonismo.
Comentário: O mercado não ficou menos preocupado. Ficou menos impressionável.
Para o petróleo voltar aos três dígitos, provavelmente será necessário um choque físico novo, não apenas mais uma rodada de ameaças.
Inflação e crescimento abaixo do esperado enfraquecem a tese de alta imediata.
O núcleo do PCE avançou apenas 0,1% em junho, abaixo da expectativa de 0,2%.
A primeira leitura do PIB americano mostrou crescimento anualizado de 1,5% no segundo trimestre, também inferior às projeções.
Os dados vieram um dia depois de o Fed manter os juros com três votos dissidentes favoráveis à alta. Parte do mercado passou a interpretar que a barreira para um aperto imediato é mais elevada do que parecia após a reunião.
Comentário: Os dissidentes querem agir. Os dados recomendam paciência.
Warsh ganhou justificativa para esperar, mas continua exposto ao risco de os juros longos interpretarem essa paciência como complacência.
O curto prazo melhora, mas a ponta longa continua desconfiando do Fed.
O rendimento do título americano de 30 anos permanece acima de 5,20%, próximo dos maiores níveis em quase duas décadas.
Mesmo com inflação e PIB mais fracos, o mercado continua incorporando:
Comentário: A curva americana conta duas histórias.
A ponta curta negocia dados mais fracos. A longa negocia dívida, credibilidade e o custo futuro de uma reação tardia.
Warsh dovish, dados fracos e suspeita de intervenção no Japão derrubam a moeda americana.
O índice DXY caiu abaixo de 100 pontos, pressionado pela leitura mais branda do Fed e pelos indicadores americanos inferiores às expectativas.
O movimento foi reforçado por rumores de intervenção do Japão no mercado cambial para conter a fraqueza extrema do iene.
Contra o real, o dólar recuou para a região de R$ 5,06, apoiado também pelo carry trade brasileiro e pelo preço ainda elevado do petróleo.
Comentário: O real voltou a combinar dois suportes: diferencial de juros e termos de troca.
O risco é a virada eleitoral ou uma nova abertura dos Treasuries longos interromperem rapidamente essa proteção.
O debate deixou de ser agosto e migrou para setembro.
A curva precifica praticamente 100% de probabilidade de corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião, levando a Selic para 14%.
A convicção foi reforçada por:
Para setembro, as apostas estão divididas entre manutenção e uma nova redução de 0,25 ponto.
Comentário: Agosto virou consenso. Setembro virou o verdadeiro trade.
O Banco Central deve cortar e manter o discurso cauteloso, evitando transformar uma sequência de dados positivos em promessa de continuidade.
A arrecadação ajuda, mas a despesa continua vencendo a corrida.
O governo central registrou déficit primário de R$ 48,2 bilhões em junho, levemente pior que o esperado.
No primeiro semestre, o resultado negativo atingiu aproximadamente R$ 92,2 bilhões, pior desempenho para o período desde 2020.
O setor público consolidado também deve apresentar déficit próximo de R$ 49,8 bilhões no mês.
Comentário: A inflação abre espaço para o Copom cortar. O fiscal limita até onde os juros podem cair.
Sem controle mais convincente das despesas, a ponta longa continuará recusando acompanhar integralmente o fechamento da ponta curta.
Novo inquérito amplia a exposição do governo às vésperas da campanha.
O ministro André Mendonça autorizou a Polícia Federal a investigar Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente.
Segundo as informações divulgadas, a investigação apurará suspeitas relacionadas à autorização para comercialização de cannabis medicinal em programas ligados ao Ministério da Saúde.
A defesa afirmou que ainda não teve acesso aos autos e questionou a competência do STF e o momento da apuração.
Comentário: Neste momento, o impacto é predominantemente político, não econômico.
O mercado acompanhará se a investigação permanece restrita ao filho do presidente ou se passa a atingir membros do governo e a narrativa eleitoral de Lula.
A possível vice traz agronegócio, moderação e maior capacidade de coalizão.
Tereza Cristina confirmou que discutiu com Flávio Bolsonaro a possibilidade de integrar a chapa como candidata a vice-presidente.
Segundo o material de apoio, a senadora aceitou a indicação, mas a composição ainda depende do aval do PP.
A campanha também realizou mudanças na coordenação de marketing, buscando reorganização após semanas de controvérsias.
Comentário: Tereza Cristina reduz uma fragilidade importante da candidatura: a dificuldade de conversar com o centro e com o agronegócio.
A definição, porém, só terá efeito eleitoral pleno se vier acompanhada da adesão formal do partido e de novas alianças.
Depois do balanço fraco, o controlador coloca um piso no preço.
O Santander espanhol lançou uma oferta voluntária para adquirir os 10% restantes do Santander Brasil que permanecem em circulação.
A proposta prevê prêmio de aproximadamente 15% e contraprestação de até 1,91 bilhão de euros.
A operação não tem como objetivo formal cancelar o registro da companhia na B3, embora possa reduzir ainda mais a liquidez e eventualmente retirar os ADRs da Bolsa de Nova York.
As ações americanas do banco brasileiro avançaram aproximadamente 9% após o anúncio.
Comentário: O prêmio deve gerar uma correção imediata das units.
Mas a oferta também transmite uma mensagem: a matriz considera o ativo barato após a forte queda provocada pelo balanço e aceita reduzir ainda mais o free float para capturar esse desconto.
Mais produção compensou parte da pressão de combustível, frete e câmbio.
A Vale apresentou lucro líquido de US$ 1,38 bilhão, queda de 35% na comparação anual e abaixo das estimativas.
O Ebitda pro forma, entretanto, cresceu 19%, para US$ 4,07 bilhões, superando as projeções.
A companhia elevou a estimativa de custo caixa C1, citando valorização do real, combustíveis e fretes mais caros. Também anunciou aproximadamente R$ 2,03 por ação em dividendos e JCP e prorrogou o programa de recompra.
Comentário: O operacional veio melhor que o lucro contábil.
Para a ação, o ponto positivo é a geração operacional. O alerta é a inflação de custos, que pode consumir parte do benefício do aumento de produção.
A Aneel decide se a inflação continuará recebendo ajuda das tarifas elétricas.
A Aneel anuncia a bandeira tarifária de agosto às 16h.
A decisão será monitorada depois de uma sequência de indicadores benignos de inflação, que aumentaram a convicção sobre o corte da Selic.
Uma bandeira mais onerosa pode pressionar o IPCA e reduzir parte do alívio proporcionado pelos alimentos e preços industriais.
Comentário: O Copom deve cortar antes de conhecer o IPCA cheio de agosto.
Por isso, qualquer aumento relevante na tarifa de energia entrará diretamente na discussão sobre uma nova redução em setembro.
Multiplan
Lucro líquido de R$ 427,4 milhões, alta de 61,7%, apoiado por créditos tributários e crescimento operacional.
EcoRodovias
Lucro recorrente caiu 74,1%, pressionado por investimentos, custos e encerramento de concessão.
CSN
Projeta prejuízo líquido entre R$ 1,3 bilhão e R$ 1,4 bilhão no primeiro semestre.
Sabesp
Acionistas aprovaram a incorporação da EMAE, que passará a ser subsidiária integral.
Raízen
Teve homologado o plano de recuperação extrajudicial envolvendo R$ 61,4 bilhões em dívidas.
Copasa
Foi elevada para overweight pelo Morgan Stanley, com preço-alvo de R$ 77.
Brasil
08h30: Resultado primário do setor público consolidado.
11h00: Teleconferências de Vale, Multiplan e EcoRodovias.
16h00: Bandeira tarifária de agosto.
Após o fechamento: Balanço da AgroGalaxy.
Disputa pela formação da Ptax de fim de mês.
Exterior
CPI preliminar da zona do euro.
09h30: Índice de Custo do Emprego dos EUA.
10h45: PMI de Chicago.
11h00: Sentimento do consumidor da Universidade de Michigan.
Resultados de Exxon Mobil e Chevron.
O último pregão do mês combina fluxo técnico, balanços e política.
A inteligência artificial retomou o comando porque Amazon e Microsoft provaram que investimento pode virar receita. O petróleo ainda carrega a guerra, mas já divide espaço com balanços e juros. No Brasil, o Copom tem o corte contratado, Santander ganha um piso com a oferta da matriz e Vale entrega operação forte com custos maiores. Hoje, tecnologia puxa o risco, mas fiscal, política e Ptax podem decidir o fechamento do mês.