Petróleo volta a subir, Fed entra no centro do jogo e Lula preserva vantagem eleitoral.
O mercado chega à decisão do Federal Reserve com três forças disputando o preço dos ativos: a retomada das tensões no Oriente Médio, o avanço da desinflação brasileira e uma eleição presidencial que continua competitiva, mas ainda favorável a Lula.
O Brent volta à região de US$ 87, depois que os Estados Unidos relataram a interceptação de um ataque iraniano e responderam, ao lado da Arábia Saudita, contra milícias apoiadas por Teerã no Iraque. A reação recoloca pressão sobre os Treasuries e lembra que a trégua recente nunca virou paz.
No Brasil, o IPCA-15 praticamente zerado consolidou a aposta em corte da Selic na próxima semana e abriu uma pequena janela para setembro. Ao mesmo tempo, a AtlasIntel mostra Lula mantendo seis pontos de vantagem sobre Flávio Bolsonaro. Petrobras entrega produção recorde, enquanto o Santander abre a temporada dos grandes bancos abaixo das expectativas.
Três dias de alívio foram suficientes para o mercado esquecer que a guerra continua aberta.
O Brent avança cerca de 4%, para a região de US$ 87 por barril, após a retomada dos confrontos no Oriente Médio.
Os Estados Unidos afirmaram ter interceptado um ataque surpresa do Irã contra bases militares. Em resposta, forças americanas e sauditas atacaram grupos apoiados por Teerã no Iraque.
Milícias pró-Irã também voltaram a lançar drones contra instalações petrolíferas sauditas, enquanto os houthis seguem pressionando a navegação no Mar Vermelho. Ormuz permanece parcialmente limitado e Bab el-Mandeb continua operando sob risco.
Comentário: A queda recente do petróleo foi construída sobre a expectativa de diplomacia. A alta de hoje mostra como essa tese ainda é frágil.
O barril não precisa voltar a US$ 100 para pressionar os juros. Basta permanecer volátil o suficiente para manter bancos centrais e curvas de juros em alerta.
A taxa pode ficar parada, mas o placar pode contratar uma alta em setembro.
O Federal Reserve anuncia sua decisão às 15h. A expectativa predominante é de manutenção dos juros entre 3,50% e 3,75%, mas os operadores ainda atribuem cerca de 30% de probabilidade a uma elevação já nesta reunião.
Com Kevin Warsh abandonando o forward guidance, os votos dissidentes ganharam importância. Parte do mercado espera que ao menos dois dirigentes defendam uma alta imediata.
Quanto maior o número de votos por aperto, maior será a percepção de que setembro continua aberto para uma nova elevação.
Comentário: O Fed não precisa subir hoje para ser hawkish.
Um comunicado duro, dissenso relevante e preocupação explícita com petróleo e tarifas podem fazer o trabalho de uma alta sem alterar a taxa.
Wall Street quer juros estáveis com discurso suave, justamente o cenário menos provável.
As bolsas americanas operam com cautela antes da decisão. O cenário considerado mais favorável seria manutenção dos juros acompanhada de uma sinalização de que o aperto atual já é suficiente.
O problema é que petróleo, tarifas e inflação subjacente ainda recomendam vigilância. O cenário-base de parte das instituições é de manutenção com comunicação dura.
Os yields dos Treasuries avançam novamente, enquanto o dólar permanece próximo da estabilidade.
Comentário: Para o mercado, manter os juros já está no preço.
O movimento virá da narrativa: quanto mais Warsh falar em persistência inflacionária, menor o espaço para valuations elevados, especialmente em tecnologia.
O corte de agosto deixou de ser dúvida; setembro começou a entrar no radar.
O IPCA-15 avançou apenas 0,06% em julho, abaixo da expectativa de 0,21% e no menor resultado para o mês em três anos.
A surpresa não ficou restrita ao índice cheio. Núcleos, serviços subjacentes e medidas de inflação acompanhadas pelo Banco Central também desaceleraram.
A curva passou a atribuir aproximadamente:
Diversas instituições revisaram para baixo suas projeções para o IPCA de 2026.
Comentário: O dado foi bom não apenas pelo número, mas pela composição.
A política monetária finalmente começa a mostrar efeito de maneira disseminada. O petróleo, porém, continua com poder para interromper essa melhora antes de setembro.
Inflação corrente melhora; expectativas longas continuam desancoradas.
O resultado do IPCA-15 fortalece a expectativa de corte de 0,25 ponto percentual na próxima semana.
Apesar disso, algumas instituições continuam defendendo manutenção da Selic, argumentando que as expectativas de inflação para horizontes mais longos permanecem acima da meta.
O mercado seguirá avaliando se a melhora corrente será suficiente para compensar:
Comentário: O corte de agosto parece contratado.
Para setembro, o BC precisará de continuidade: inflação benigna, atividade desacelerando e petróleo sem nova explosão. Um único dado bom não sustenta sozinho um ciclo maior.
O IPCA-15 retirou prêmio; a guerra tenta devolvê-lo.
Após a surpresa positiva da inflação, os DIs fecharam de forma relevante:
A retomada da alta do Brent e uma eventual comunicação mais dura do Fed podem limitar ou reverter parte desse movimento.
Comentário: A ponta curta negocia Copom. A ponta longa negocia petróleo, fiscal, Fed e eleição.
Hoje, o risco é a curva abrir mesmo com inflação doméstica melhor, caso o ambiente externo domine o pregão.
A crise de Flávio não ampliou a distância, mas também não reduziu a liderança do presidente.
A pesquisa AtlasIntel mostra Lula com 49% das intenções de voto, contra 43% de Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno.
A diferença de seis pontos mudou pouco em relação ao levantamento anterior.
A aprovação de Lula subiu para 48%, enquanto a desaprovação caiu para 51%, movimentos dentro da margem de erro. Flávio preservou sua base eleitoral apesar das controvérsias envolvendo Daniel Vorcaro e das tensões com Michelle Bolsonaro.
Comentário: A pesquisa traz uma dupla leitura.
Lula mantém a vantagem e melhora a avaliação pessoal. Flávio, porém, mostra resistência eleitoral mesmo atravessando uma semana politicamente ruim. A eleição segue competitiva, mas com o governo ainda na frente.
A oposição preserva seu eleitorado, mas ainda não constrói maioria.
Flávio Bolsonaro já teve a candidatura oficializada pelo PL, mas continua sem uma coligação nacional robusta e sem definição clara de vice.
Ao mesmo tempo, Lula avança com Geraldo Alckmin e reforça o discurso de soberania nacional diante das tensões com os Estados Unidos.
O tarifaço americano pode ter efeito econômico limitado, mas passou a ser incorporado à narrativa política do governo.
Comentário: O mercado não recebeu uma ruptura nas pesquisas.
Sem mudança relevante, o prêmio eleitoral tende a permanecer concentrado na parte longa da curva, aguardando alianças, propostas econômicas e evolução da rejeição.
Volume forte reduz a dependência exclusiva do preço do petróleo.
A Petrobras produziu aproximadamente 3,34 milhões de barris de óleo equivalente por dia no segundo trimestre, alta de 14% na comparação anual.
A companhia também operou suas refinarias em níveis elevados, aumentou exportações e registrou crescimento das vendas de derivados no mercado interno.
Os números reforçam a expectativa de um resultado financeiro robusto no balanço de 6 de agosto.
Comentário: A alta do Brent ajuda, mas o destaque é operacional.
Produção recorde significa mais capacidade de geração de caixa e reduz o risco de a tese depender apenas de guerra ou de preços internacionais excepcionalmente altos.
Lucro abaixo do esperado reacende a preocupação com crédito e provisões.
O Santander Brasil apresentou lucro líquido gerencial de R$ 3,01 bilhões, abaixo da estimativa de R$ 3,72 bilhões.
Os grandes bancos devem mostrar crescimento agregado dos lucros no trimestre, mas o ambiente permanece dividido:
Comentário: A temporada bancária não será julgada apenas pelo lucro.
O mercado quer enxergar qualidade da carteira, inadimplência controlada e capacidade de preservar margem em um ambiente de juros ainda restritivos.
Depois de Alphabet, o mercado quer caixa, não apenas crescimento.
Microsoft e Meta divulgam resultados após o fechamento.
Os investidores acompanharão:
A queda recente de diversas empresas de tecnologia mostra que o mercado está menos tolerante com investimentos elevados sem monetização clara.
Comentário: A tese de inteligência artificial não acabou.
Mas o cheque em branco acabou. Quem gastar muito precisará mostrar quando e como esse gasto vira lucro.
Brent mais alto ajuda o real; Fed mais duro pode retirar esse benefício.
O petróleo mais caro tende a favorecer a balança comercial brasileira e os termos de troca, oferecendo suporte ao real.
Em sentido contrário, uma eventual alta futura dos juros americanos reduziria a vantagem relativa do carry trade brasileiro, especialmente se o Copom continuar cortando a Selic.
O dólar encerrou o pregão anterior em torno de R$ 5,12, depois de a queda do petróleo retirar parte do apoio recente à moeda brasileira.
Comentário: Para o câmbio, hoje existe uma disputa direta:
Petróleo favorece o real; Fed hawkish favorece o dólar. A fala de Warsh pode valer mais que a direção do Brent.
Motiva
Divulga balanço após o fechamento, com expectativa de crescimento de receita, margens e lucro, apoiado por tráfego e reajustes tarifários.
Embraer
A ANA encomendou mais oito aeronaves E190-E2, reforçando a carteira comercial da fabricante brasileira.
Cogna
Foi elevada para outperform pelo Bradesco BBI, com preço-alvo de R$ 3,80.
Ânima
Foi rebaixada para neutra pelo Bradesco BBI, com preço-alvo de R$ 4,30.
MRV
Concluiu a venda de dois empreendimentos no Texas por US$ 139 milhões, reduzindo o endividamento líquido consolidado em US$ 87 milhões.
Magazine Luiza
Teve o preço-alvo reduzido pelo Citi, que manteve recomendação neutra diante da pressão competitiva no comércio eletrônico.
Brasil
Estados Unidos
O pregão tem quatro gatilhos principais:
O IPCA-15 abriu a porta para mais Selic, mas o petróleo voltou para tentar fechá-la. Lula mantém a vantagem, Petrobras entrega produção recorde e o Santander lembra que crédito ainda cobra seu preço. No exterior, o Fed pode manter os juros e, ainda assim, apertar as condições financeiras. Hoje, o mercado não negocia apenas a decisão, negocia o tom de Warsh e o número de dissidentes.