Brent despenca, juros respiram e a guerra devolve espaço para Fed, inflação e balanços.
A semana começa com uma mudança importante no comando dos mercados. Depois de quase duas semanas dominadas pela escalada entre Estados Unidos e Irã, a pausa nos ataques derruba o petróleo, reduz os juros globais e devolve algum apetite por risco às bolsas.
O Brent cai cerca de 8%, para a região de US$ 88, enquanto autoridades do Irã e de Omã discutem mecanismos para garantir a segurança da navegação no Estreito de Ormuz. O alívio é relevante, mas ainda não representa um acordo definitivo: o bloqueio naval continua, os houthis permanecem ativos no Mar Vermelho e Washington afirma que todas as opções seguem sobre a mesa.
No Brasil, o movimento pode aliviar a curva de juros às vésperas do Copom, que tem um corte de 0,25 ponto percentual amplamente precificado. O Focus, o IPCA-15 e os dados de emprego testarão essa convicção. Na política, Lula mantém vantagem sobre Flávio Bolsonaro, que oficializou a candidatura em meio a dificuldades jurídicas, partidárias e familiares.
A pausa nos ataques retira parte do prêmio de guerra acumulado em julho.
O Brent cai para a região de US$ 88 por barril, depois de ter ultrapassado US$ 100 no auge da escalada militar.
Os Estados Unidos interromperam, pela segunda noite consecutiva, a sequência de ataques contra o Irã. Teerã também sinalizou que poderá suspender suas ofensivas enquanto Washington mantiver a pausa.
Omã retomou os esforços de mediação, com apoio de Paquistão e China, enquanto autoridades discutem mecanismos para garantir a passagem de embarcações pelo Estreito de Ormuz.
A queda do petróleo reduz imediatamente:
O petróleo está devolvendo o excesso produzido pelo medo, mas ainda não voltou à normalidade.
A queda é um alívio macroeconômico importante. Porém, enquanto Ormuz continuar bloqueado e o Mar Vermelho permanecer ameaçado, a trégua será negociada como pausa, não como paz.
A interrupção dos bombardeios não significa retomada completa do fluxo de energia.
O bloqueio naval americano sobre portos iranianos permanece em vigor, e os houthis continuam pressionando embarcações ligadas à Arábia Saudita no Mar Vermelho.
Antes da pausa, as ameaças simultâneas ao Estreito de Ormuz e a Bab el-Mandeb haviam levado o Brent aos três dígitos e elevado fortemente os custos de transporte e seguros marítimos.
Donald Trump afirmou que o objetivo da suspensão é abrir espaço para a diplomacia, mas reiterou que outras opções continuam disponíveis.
Para o mercado, a próxima etapa não é apenas cessar os ataques. É garantir que navios, petróleo e gás voltem a circular normalmente.
Sem normalização logística, o barril pode cair no curto prazo e continuar carregando prêmio estrutural de guerra.
Petróleo mais baixo reduz a urgência de uma nova alta de juros nos Estados Unidos.
A taxa da Treasury de dez anos recua para aproximadamente 4,63%, acompanhando a descompressão da energia.
O Federal Reserve decide os juros na quarta-feira. A expectativa predominante é de manutenção, mas o comunicado será examinado em busca de sinais sobre uma possível alta ainda em 2026.
Até a semana passada, o petróleo próximo de US$ 100 havia elevado significativamente as apostas de aperto em setembro. A correção da commodity reduz parte dessa pressão, embora não elimine o risco inflacionário.
Depois da decisão, o mercado acompanhará:
Comentário: A queda do petróleo melhora o cenário, mas não autoriza o Fed a declarar vitória.
A autoridade monetária continuará conservadora porque ainda precisa saber se o recuo da energia é sustentável ou apenas uma reação temporária à pausa militar.
O petróleo mais baixo reforça a aposta em redução da Selic na próxima semana.
A curva brasileira embute corte de 0,25 ponto percentual na reunião do Copom dos dias 4 e 5 de agosto.
Na sexta-feira, o primeiro alívio do petróleo já provocou fechamento relevante dos DIs:
Gabriel Galípolo evitou antecipar a decisão durante a Expert XP e repetiu que o cenário exige política monetária restritiva por período prolongado.
Comentário: O corte de agosto ganhou novo fôlego. A continuidade do ciclo, porém, ainda não está garantida.
O mercado pode voltar a discutir mais cortes se o Brent permanecer abaixo de US$ 90. Se a guerra reacender, agosto poderá ser a última redução.
O problema do Banco Central não está apenas na inflação deste ano.
O Focus será acompanhado principalmente pela projeção do IPCA de 2028, que subiu de 3,70% para 3,78% na edição anterior.
A piora indica maior demora na convergência para a meta e amplia a preocupação com expectativas de longo prazo.
Amanhã, o IPCA-15 de julho será outro teste importante. A mediana do mercado aponta desaceleração para aproximadamente 0,21%, depois de 0,41% em junho.
Comentário: Petróleo baixo ajuda a inflação corrente. Expectativa desancorada exige confiança na política monetária.
Para o Copom, uma leitura benigna do IPCA-15 será importante, mas a trajetória de 2027 e 2028 continua sendo o verdadeiro limitador do ciclo.
Inflação pode aliviar; o mercado de trabalho precisa confirmar a desaceleração.
Na quinta-feira, serão divulgados a Pnad Contínua e o Caged de junho.
Os números ajudarão a avaliar se a perda de ritmo observada em varejo, serviços e IBC-Br está chegando ao mercado de trabalho.
Uma desaceleração mais clara do emprego reduziria a pressão sobre salários, serviços e inflação subjacente.
Comentário: O BC não corta apenas porque o petróleo caiu.
Para ampliar o ciclo, precisará enxergar atividade, emprego e inflação caminhando na mesma direção.
Datafolha preserva liderança do presidente sem encerrar a disputa.
O Datafolha mostrou Lula com:
A vantagem ficou praticamente estável. O levantamento BTG/Nexus também mostrou manutenção de Lula e oscilação negativa de Flávio.
O PL oficializou no sábado a candidatura do senador, ainda sem vice e sem alianças relevantes com os principais partidos de centro.
Comentário: Lula mantém a dianteira, mas cinco pontos em segundo turno ainda representam uma eleição competitiva.
Para os ativos, o importante será acompanhar rejeição, alianças e a capacidade de cada candidatura de apresentar uma agenda fiscal crível.
A campanha começou oficialmente antes de resolver seus principais problemas.
A convenção do PL oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência.
O lançamento ocorreu em meio a:
O nome do senador Astronauta Marcos Pontes passou a ser considerado para a vice.
Comentário: A candidatura existe formalmente, mas ainda precisa demonstrar viabilidade política.
Sem alianças nacionais e estaduais consistentes, Flávio pode ter dificuldade para converter o eleitorado bolsonarista em uma coalizão capaz de vencer o segundo turno.
Tarifas, vistos e eleições aproximam a crise comercial da crise institucional.
O presidente Lula voltou a criticar as tarifas americanas e defendeu o Pix em artigo publicado no Washington Post.
O governo brasileiro também negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que pretendiam visitar o país para discutir a integridade do sistema eleitoral.
Brasília interpretou a iniciativa como uma possível tentativa de interferência externa e prepara nova contestação das tarifas na Organização Mundial do Comércio.
O governo ainda convocou o embaixador brasileiro na Argentina após declarações de Javier Milei durante a convenção do PL.
Comentário: O risco deixou de ser exclusivamente comercial.
Quanto mais tarifas e eleição se misturam, menor o espaço para uma solução técnica e maior a probabilidade de escalada diplomática.
Depois do petróleo, Wall Street volta a discutir o custo da inteligência artificial.
A temporada de balanços entra em uma semana decisiva:
O mercado acompanhará investimentos em data centers, chips, modelos de IA, margens e geração de caixa.
As quedas recentes de Alphabet e Tesla mostraram que crescimento de receita não será suficiente caso os investimentos destruam fluxo de caixa livre.
Comentário: A pergunta continua a mesma: quem conseguirá transformar inteligência artificial em lucro antes que o custo do investimento pressione demais o balanço?
A empresa que entregar expansão com caixa será premiada. A que entregar apenas gasto continuará sendo vendida.
A velha economia volta a competir pelo fluxo estrangeiro.
Depois de dois meses de retirada, o capital estrangeiro voltou à B3 em julho, com saldo positivo de aproximadamente R$ 4,6 bilhões.
Uma das leituras é que posições em tecnologia e inteligência artificial no exterior ficaram saturadas, abrindo espaço para ativos ligados a:
O Brasil passou a ser tratado por algumas instituições como uma alternativa de diversificação em relação aos mercados altamente concentrados em tecnologia.
Comentário: O Brasil pode funcionar como hedge contra o excesso de IA, mas não está protegido de uma correção global.
Fluxo estrangeiro ajuda. Fiscal e eleição continuam determinando se esse dinheiro permanece.
O mesmo movimento que alivia a curva pode pesar sobre o Ibovespa.
A queda do Brent reduz o risco inflacionário e tende a favorecer:
Ao mesmo tempo, retira parte do suporte recente da Petrobras, que foi uma das principais responsáveis por amortecer as quedas do Ibovespa durante a escalada da guerra.
Na sexta-feira, Petrobras caiu acompanhando a realização do petróleo, enquanto o Ibovespa recuou 1,52%, aos 174.042 pontos.
Comentário: Hoje pode ocorrer uma rotação dentro da Bolsa.
Sai parte da força de petróleo e entram empresas mais dependentes de juros menores. Para o índice, o saldo dependerá da intensidade desses dois movimentos.
Petróleo mais barato melhora a inflação, mas reduz uma vantagem recente do câmbio.
Durante a escalada da guerra, o real foi beneficiado pela posição do Brasil como exportador de petróleo e pelo carry trade elevado.
Com a commodity em queda, o apoio dos termos de troca diminui. Em compensação, o recuo dos Treasuries e a melhora do ambiente global favorecem moedas emergentes.
O dólar encerrou a sexta-feira próximo de R$ 5,08.
Comentário: Para o câmbio, a queda do petróleo produz forças opostas.
O real perde o benefício comercial, mas ganha com juros globais menores e redução da aversão ao risco. O resultado dependerá principalmente do fluxo estrangeiro.
Embraer
A carteira de pedidos atingiu o recorde de US$ 34,5 bilhões no segundo trimestre, alta de 16% na comparação anual. As entregas cresceram 7%, para 65 aeronaves.
Brava Energia
O conselho aprovou a oferta da Ecopetrol para aquisição do controle da companhia.
WEG
Foi elevada para overweight pelo JPMorgan, com preço-alvo de R$ 56.
Vivo e TIM
Divulgam resultados após o fechamento, abrindo uma semana relevante para telecomunicações e empresas defensivas.
Localiza
A Dynamo elevou sua participação para 25,01% das ações preferenciais.
Vale
Divulga balanço na quinta-feira, depois de apresentar produção e vendas robustas no segundo trimestre.
Hoje
08h25: Boletim Focus
09h30: Encomendas de bens duráveis nos EUA
Leilão de swap cambial
Após o fechamento: Vivo e TIM
Terça-feira
IPCA-15
Contas externas
Confiança do consumidor americano
Pesquisa AtlasIntel
Quarta-feira
Decisão de juros do Fed
Balanços de Meta e Microsoft
Resultado do Santander
Quinta-feira
PIB e PCE dos Estados Unidos
Pnad e Caged
Decisão do Banco da Inglaterra
Balanços de Amazon, Apple, Vale e Ambev
Sexta-feira
Decisão do Banco do Japão
Dados fiscais brasileiros
ISM industrial americano
Expectativas de inflação da Universidade de Michigan
A segunda-feira começa com uma rotação clara de cenário:
O petróleo devolveu o prêmio de guerra e entregou oxigênio para juros e bolsas. Agora o mercado volta a olhar para Fed, inflação, Copom e balanços. Para o trader, o recado é direto: a queda do Brent muda o preço dos ativos, mas somente uma solução em Ormuz mudará definitivamente o cenário.