Resumo do dia 20/07
Petróleo perde força com diplomacia, mas guerra ainda ameaça juros, inflação e ativos globais.
A semana começa com uma tentativa de descompressão no principal risco dos mercados. O Brent chegou a superar US$ 91, mas devolveu a alta para a região de US$ 88 depois que o Irã revelou contatos de Qatar e Paquistão para mediar o conflito com os Estados Unidos.
O movimento traz algum alívio, mas está longe de representar uma trégua. Os EUA completaram o nono dia consecutivo de ataques, Teerã manteve ofensivas contra bases americanas e o Estreito de Ormuz continua operando sob ameaça. No Brasil, o Focus, o risco de uma nova tarifa americana e as dúvidas fiscais dividem espaço com o início das convenções eleitorais.
Diplomacia segura o petróleo, por enquanto
O Brent recua, mas o risco de guerra continua embutido no preço.
O petróleo chegou a superar brevemente US$ 91 por barril, mas devolveu os ganhos após o Irã informar que Qatar e Paquistão apresentaram propostas para reduzir as tensões.
O ministro do Interior iraniano viajará ao Paquistão nesta segunda-feira, sinalizando alguma abertura diplomática. Ainda assim, os Estados Unidos mantiveram os ataques pelo nono dia consecutivo, enquanto Teerã continuou atingindo bases americanas no Kuwait, Jordânia, Bahrein e Iraque.
Comentário: O mercado comprou a possibilidade de mediação, não uma solução. Enquanto Ormuz permanecer ameaçado, qualquer manchete pode recolocar rapidamente o Brent acima de US$ 90.
Petróleo volta a testar a tese de corte de juros
O choque de energia ameaça apagar parte do alívio trazido pela inflação.
O Brent acumulou valorização superior a 20% em julho, pressionando gasolina, diesel e expectativas inflacionárias.
Nos Estados Unidos, o mercado voltou a discutir altas de juros pelo Fed em setembro ou outubro. No Brasil, a preocupação é saber se a pressão sobre energia pode reduzir o espaço para cortes da Selic.
Comentário: CPI e PPI deram um alívio. O petróleo tenta retirar esse prêmio. Se a commodity permanecer entre US$ 85 e US$ 90, Fed e Copom terão menos liberdade para flexibilizar a política monetária.
Curva brasileira volta a cobrar prêmio
Atividade desacelera, mas petróleo e fiscal impedem fechamento dos DIs.
O IBC-Br de maio avançou apenas 0,1%, desacelerando em relação à alta de 0,5% registrada em abril. O resultado reforçou a leitura de perda gradual de ritmo da economia no segundo trimestre.
Apesar disso, os juros futuros abriram prêmio na sexta-feira. O movimento foi puxado pelo petróleo e por preocupações com a sustentabilidade da dívida pública e possíveis mudanças nos parâmetros do arcabouço fiscal.
No fechamento:
DI Jan/27: 13,960%
DI Jan/29: 14,335%
DI Jan/31: 14,525%
DI Jan/33: 14,600%
A atividade ainda permite discutir corte da Selic.
O problema é que a curva não negocia apenas atividade: negocia petróleo, dívida e eleição. Por isso, a ponta curta pode aliviar sem que os vértices longos acompanhem.
Focus testa o impacto do novo choque
Mercado busca sinais de contaminação nas expectativas de inflação.
O Banco Central divulga o Boletim Focus após uma semana marcada pelo avanço do petróleo e pela reabertura da curva de juros.
O mercado acompanhará especialmente as projeções para:
- IPCA de 2026 e 2027;
- Selic;
- câmbio;
- crescimento econômico.
Mais importante que pequenas revisões será a direção das expectativas longas.
Se o petróleo começar a contaminar 2027, o Copom perderá parte do conforto para continuar cortando.
Dólar continua protegido pelo carry e pelo petróleo
A guerra piora o risco global, mas também melhora os termos de troca brasileiros.
Mesmo com a escalada no Oriente Médio, o dólar encerrou a sexta-feira em alta moderada, a R$ 5,1112.
O real continua recebendo suporte de dois fatores:
- diferencial elevado de juros;
- posição do Brasil como exportador de petróleo.
Por outro lado, bancos estrangeiros começam a demonstrar maior cautela com os riscos fiscais e eleitorais brasileiros.
O petróleo produz um efeito duplo.
Ajuda a balança comercial e a Petrobras, mas pressiona inflação, juros e percepção de risco. Por isso, o câmbio pode continuar relativamente comportado mesmo com a piora externa.
Risco de nova tarifa ainda não saiu da mesa
Depois dos 25%, o mercado acompanha a possibilidade de mais 12,5%.
O governo brasileiro trabalha com a hipótese de os Estados Unidos anunciarem uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos associados ao uso de insumos produzidos com trabalho forçado.
A principal dúvida é se essa tarifa será cumulativa aos 25% já anunciados.
O Brasil continua priorizando a negociação e descartando, por enquanto, uma retaliação imediata.
Comentário: O primeiro tarifaço teve impacto econômico limitado pelas exceções. Uma tarifa cumulativa mudaria a leitura, especialmente para setores industriais já atingidos e para a percepção de escalada comercial.
Tech tenta interromper a correção
Sell-off dos chips perde força antes dos balanços das big techs.
O Nasdaq tenta interromper três sessões consecutivas de queda após a forte correção nas fabricantes de semicondutores.
A Alphabet abre na quarta-feira a temporada de resultados das grandes empresas diretamente ligadas aos investimentos em inteligência artificial. Tesla e IBM também divulgam números no mesmo dia.
Comentário: A semana pode definir se a queda recente foi apenas realização ou uma reprecificação mais profunda do trade de IA. O mercado não quer apenas crescimento. Quer retorno sobre os bilhões investidos em chips e data centers.
Convenções colocam a eleição no calendário oficial
A política sai da pré-campanha e entra na fase de formalização.
Partidos e federações iniciam hoje o período de convenções para definir candidaturas e coligações. O prazo segue até 5 de agosto.
O PL deve oficializar Flávio Bolsonaro no dia 25, enquanto Lula prepara o lançamento de sua campanha para o início de agosto.
Jair Bolsonaro permanece em prisão domiciliar e está proibido de receber visitas com finalidade política ou eleitoral.
Comentário: O mercado passará a reagir mais intensamente às pesquisas e às alianças. A variável eleitoral tende a ganhar peso especialmente na parte longa da curva de juros e no prêmio de risco da Bolsa.
Fiscal será o grande teste doméstico da semana
Relatório Bimestral pode confirmar bloqueios ou aumentar a desconfiança.
Na sexta-feira, o governo divulga o Relatório Bimestral de Avaliação de Receitas e Despesas.
O documento atualizará:
- projeções de receitas;
- resultado primário;
- necessidade de bloqueios ou contingenciamentos;
- execução do Orçamento.
O mercado também acompanha relatos de que a Fazenda discute mudanças nos parâmetros do arcabouço e na composição da dívida pública.
Comentário: Para a curva longa, esse é o principal evento doméstico da semana. Sem medidas concretas para estabilizar a dívida, qualquer mudança de regra será interpretada como flexibilização fiscal.
BCE e PMIs completam a agenda global
Europa decide juros enquanto a guerra redefine a inflação mundial.
O Banco Central Europeu decide a política monetária na quinta-feira. A expectativa é de manutenção da taxa em 2,40%.
Na sexta-feira, os PMIs preliminares de julho mostrarão o ritmo da atividade nas principais economias.
Comentário: Lagarde terá de equilibrar crescimento fraco e energia mais cara. O petróleo transforma uma reunião aparentemente tranquila em um evento potencialmente relevante para moedas e juros europeus.
Radar corporativo
Oncoclínicas
A IG4 busca obter a maioria dos direitos de voto da empresa em meio ao processo de reestruturação.
Embraer
A controladora da Gol está próxima de fechar acordo envolvendo aeronaves E2. A Eve também assinou cartas de intenção para a venda de 46 eVTOLs.
Vale
Divulga amanhã o relatório de produção e vendas do segundo trimestre.
Raízen
Recebeu da B3 prazo até março de 2027 para reenquadrar o preço das ações acima de R$ 1.
Grupo SBF
Pagará R$ 125 milhões em dividendos no dia 5 de agosto.
Agenda do dia
Brasil
08h25: Boletim Focus
11h30: Leilão de swap cambial
15h00: Balança comercial semanal
Reuniões de Gabriel Galípolo com BofA, CSD BR e Cargill.
Exterior
Monitoramento do petróleo e das negociações EUA Irã.
Reunião entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu.
Mercados do Japão fechados por feriado.
Visão para o trader
A segunda-feira começa com um alívio frágil.
A diplomacia retirou o Brent da máxima, mas não eliminou a guerra. O mercado continua dividido entre uma atividade econômica que perde força e um choque de energia que pressiona inflação e juros.
Na prática:
- Petróleo: segue como principal driver global.
- Petrobras: continua protegida pelo preço do barril.
- DI curto: atividade fraca mantém a tese de corte.
- DI longo: petróleo e fiscal continuam cobrando prêmio.
- Dólar: carry e exportação de petróleo limitam a alta.
- Nasdaq: balanços das big techs definirão o futuro do trade de IA.
A leitura da mesa é direta: a diplomacia reduziu o preço do petróleo, mas ainda não reduziu o risco.
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