CPI alivia o Fed, mas fiscal americano segura os juros longos; no Brasil, o gringo continua saindo e a eleição já cobra prêmio
O exterior entrega uma fotografia melhor na ponta curta: o CPI americano veio comportado, reduziu a urgência de aperto do Fed e os Treasuries recuam antes do PPI. Só que o problema migrou para o longo prazo: déficit fiscal, petróleo perto de US$ 88 e leilões do Tesouro americano mantêm os yields longos elevados.
No Brasil, o quadro continua mais desconfortável. O Ibovespa completou sete quedas consecutivas, o dólar chegou à região de R$ 5,18 e o estrangeiro já retirou R$ 7,2 bilhões em cinco sessões. Varejo testa a desaceleração da atividade, Congresso entrega uma trava fiscal para 2027 e o plano econômico de Flávio Bolsonaro entra no radar à noite.
Inflação americana moderada fortalece a tese de que setembro pode passar sem novo aperto.
O CPI de julho subiu 0,1% no mês e 3,4% em 12 meses, enquanto o núcleo avançou 0,2% e desacelerou para 2,5% ao ano.
A leitura reduziu a pressão imediata sobre o Fed. Hoje, o PPI funciona como mais uma confirmação ou como primeiro obstáculo dessa leitura.
Comentário: O payroll enfraqueceu e o CPI não assustou.
A combinação está melhor para ativos de risco, mas o mercado ainda não recebeu autorização para declarar vitória sobre a inflação.
Fed pode parar; Tesouro americano continua pagando caro para financiar o déficit.
Os EUA ofertam US$ 25 bilhões em Treasuries de 30 anos, depois de o leilão de dez anos sair com o maior rendimento desde 2007.
A dívida longa já negociou acima de 5%, pressionada por déficits elevados e preocupação com inflação estrutural.
Comentário: Esse é um trade importante:
Fed dovish não significa automaticamente Treasury longo fechado.
A ponta curta negocia política monetária. A longa negocia dívida, oferta de títulos e credibilidade fiscal.
Petróleo recua na tela, mas continua perto de US$ 88 depois de subir 12% em seis sessões.
Estados Unidos e Irã seguem sem solução concreta para a reabertura do Estreito.
O Paquistão tenta costurar uma trégua temporária, mas as posições de Washington e Teerã continuam divergentes. Ao mesmo tempo, estoques maiores e expectativa de demanda menor impedem nova disparada do barril.
Comentário: O petróleo entrou num cabo de guerra:
geopolítica segura o preço; fundamento tenta derrubar.
Enquanto Ormuz continuar bloqueado, qualquer manchete diplomática pode valer vários dólares no Brent.
R$ 7,2 bilhões deixaram a B3 em apenas cinco pregões.
O estrangeiro retirou mais R$ 1,7 bilhão na segunda-feira, completando cinco sessões consecutivas de saída.
O Ibovespa chegou à sétima queda seguida e acumula perda próxima de 6% no mês.
Comentário: Esse continua sendo o principal dado da Bolsa brasileira.
Pode haver valuation, Selic menor e balanço bom. Enquanto o fluxo vender Brasil, preço manda mais que fundamento no curtíssimo prazo.
Sete quedas seguidas colocam o índice na pior sequência em cerca de um ano.
O Ibovespa terminou ontem aos 167,5 mil pontos, após ter perdido os 168 mil na sessão anterior.
Bancos e Petrobras continuaram pressionados, enquanto Embraer destoou com forte valorização.
Comentário: Depois de sete pregões negativos, vender apenas porque caiu vira um trade cada vez mais arriscado.
Mas tentar fundo sem fluxo comprador também é antecipação. O sinal que interessa agora é parar de cair com volume e começar a atrair dinheiro novamente.
Nem o CPI benigno dos Estados Unidos conseguiu ajudar o real.
O dólar chegou perto de R$ 5,18, mesmo após a inflação americana reduzir a pressão sobre os Treasuries curtos.
O câmbio continua absorvendo saída de estrangeiros, eleição e preocupação fiscal.
Comentário: Quando o exterior melhora e o real não acompanha, a mensagem fica clara:
o mercado está comprando hedge contra Brasil, não contra o Fed.
Depois de indústria e serviços perderem força, o consumo entra na prova.
Os dados de junho devem mostrar atividade comercial ainda fraca. No varejo ampliado, as projeções apontam nova contração, enquanto o restrito pode apresentar alguma estabilidade ou leve avanço.
Serviços ficaram estáveis ontem, mas ainda compatíveis com uma economia perdendo impulso.
Comentário: Para o Copom, atividade mais fraca ajuda setembro.
Para a Bolsa, existe uma linha fina: desaceleração suficiente para cortar juros é boa; desaceleração suficiente para derrubar lucro vira problema.
Medida tenta limitar o crescimento das despesas no Orçamento de 2027.
O Congresso aprovou um mecanismo para restringir gastos caso o cenário fiscal exija ajuste.
Segundo o Ministério da Fazenda, a medida pode reduzir despesas obrigatórias em aproximadamente R$ 10 bilhões no próximo ano.
Comentário: É um sinal melhor para o fiscal, mas R$ 10 bilhões isoladamente não resolve a discussão estrutural.
O mercado vai querer saber se a trava funciona quando houver pressão política para gastar especialmente depois da eleição.
Programa econômico será apresentado hoje à noite.
Flávio Bolsonaro apresenta às 19h seu plano de governo, após sua campanha sinalizar propostas para tornar a regra fiscal mais rígida conforme a dívida pública aumenta.
A divulgação acontece justamente quando o risco eleitoral já começou a aparecer nos ativos.
Comentário: O mercado já ouviu discurso fiscal dos dois lados.
Agora começa a fase da conta: meta, gasto, dívida, execução e viabilidade no Congresso.
É isso que transforma proposta eleitoral em preço.
Resultado supera projeções, mas inadimplência rural segue pressionando o banco.
O BB apresentou lucro ajustado de aproximadamente R$ 3,9 bilhões, acima das estimativas, e manteve o guidance de 2026.
A inadimplência no agronegócio, porém, alcançou 6,27%, mantendo provisões e custo de risco no centro da discussão.
Comentário: O balanço veio melhor que o medo.
Mas o mercado precisa descobrir se o trimestre marcou o pico da deterioração do crédito ou apenas uma pausa antes de novas provisões.
Dívida e custo financeiro continuam sequestrando o resultado.
A companhia registrou prejuízo líquido de R$ 773 milhões, pior que o esperado, apesar do avanço do Ebitda.
O endividamento elevado mantém a venda de ativos como parte relevante da estratégia financeira.
Comentário: Na CSN, o problema já não é apenas operação.
Enquanto a alavancagem não cair, resultado operacional melhor corre o risco de continuar sendo consumido pela estrutura de capital.
Mercado espera lucro recorde, mas vai cobrar qualidade de crédito e crescimento.
As projeções apontam lucro próximo de US$ 958 milhões, cerca de 50% acima de um ano antes.
Custos de crédito podem melhorar, enquanto investimentos em novos mercados e inteligência artificial tendem a pressionar despesas.
Comentário: Para Nubank, bater lucro já virou obrigação.
A ação vai negociar crescimento de clientes, margem, inadimplência e capacidade de crescer sem deteriorar retorno.
PPI: confirma ou desafia o alívio deixado pelo CPI.
Treasury 30 anos: leilão testa o prêmio fiscal americano.
DI curto: atividade fraca mantém setembro vivo.
DI longo: eleição e fiscal continuam cobrando prêmio.
Dólar: fluxo estrangeiro continua sendo o principal driver.
Ibovespa: sete quedas tornam fluxo mais importante que narrativa.
Petróleo: Ormuz segura Brent perto de US$ 88.
BB: crédito agro vale mais que o lucro nominal.
CSN: alavancagem continua no comando.
Nubank: principal balanço do after.
O CPI tirou pressão do Fed, mas não resolveu o problema dos juros longos americanos. No Brasil, o paradoxo é maior: inflação melhora, atividade desacelera e setembro continua vivo mas o estrangeiro segue saindo, o dólar ronda R$ 5,18 e o Ibovespa acumula sete quedas. Lá fora, o mercado discute quando o Fed para. Aqui, a pergunta é outra: quando o gringo para de vender?