Payroll alivia o Fed, Ormuz devolve prêmio ao petróleo e eleição volta a pressionar o radar doméstico
A semana começa com uma combinação que parece boa para emergentes, mas ainda tem prazo de validade: o payroll americano mostrou destruição de 23 mil vagas em julho, derrubou as apostas de alta do Fed em setembro e ajudou juros e dólar a recuarem. Agora, CPI e PPI dos Estados Unidos terão a missão de confirmar ou destruir esse alívio.
No Brasil, o mercado entra na semana de IPCA + ata do Copom, com a curva aumentando a aposta em novo corte da Selic em setembro. Ao mesmo tempo, o petróleo volta à região de US$ 84 porque a prometida solução para Ormuz continua presa na diplomacia.
Na política, Lula amplia novamente sua vantagem sobre Flávio Bolsonaro no levantamento BTG Pactual/Nexus, enquanto a campanha presidencial começa a apresentar propostas com impacto direto sobre fiscal, emprego e investimento.
Os Estados Unidos perderam 23 mil vagas e setembro deixou de ser uma alta quase automática.
O payroll surpreendeu fortemente para baixo, contra expectativa de criação próxima de 80 mil empregos. Maio e junho também sofreram revisões negativas.
A reação foi imediata: Treasury cedeu, dólar enfraqueceu e o mercado reduziu a probabilidade de alta dos juros americanos já em setembro.
Comentário: O emprego deu alívio, não absolvição.
O Fed continua olhando principalmente para inflação. Um CPI forte nesta semana pode devolver rapidamente tudo que o payroll retirou da curva.
O mercado saiu do payroll fraco diretamente para o teste de inflação.
O CPI de julho será divulgado na quarta-feira, com expectativa de alta mensal de 0,1% no índice cheio e 0,2% no núcleo.
Na quinta-feira sai o PPI, enquanto o Fed ainda terá novos dados de emprego e inflação antes da reunião de setembro.
Comentário: O trade americano ficou simples de entender, mas difícil de executar:
inflação comportada confirma a pausa; inflação quente ressuscita a alta.
A diplomacia prometeu uma rota; o Irã entregou uma lista de condições.
Irã e Omã ainda não conseguiram concluir um acordo capaz de normalizar o Estreito de Ormuz.
Teerã exige, entre outros pontos, fim do bloqueio, retirada de sanções, liberação de ativos e compensações relacionadas ao conflito.
Enquanto isso, o tráfego marítimo continua reduzido e os houthis reivindicaram novos ataques contra instalações sauditas.
Comentário: O mercado já entendeu que conversar sobre Ormuz é muito diferente de reabrir Ormuz.
Enquanto os navios não voltarem, o petróleo continuará carregando prêmio geopolítico e esse prêmio chega diretamente à inflação e aos juros.
A curva aumentou a aposta em novo corte da Selic para setembro.
Depois do payroll americano, a precificação passou a embutir aproximadamente 17,7 pontos-base de redução na próxima reunião do Copom.
A mediana do Focus já havia migrado para Selic de 13,75% no fim do ano.
A próxima prova será amanhã, quando o mercado recebe a ata do Copom e o IPCA de julho praticamente em sequência.
Comentário: O exterior melhorou a equação para o BC.
Agora o Brasil precisa fazer a parte dele: inflação baixa, atividade moderando e expectativas cedendo. Sem isso, setembro continua sendo aposta não compromisso.
Inflação deve praticamente zerar em julho e voltar para baixo do teto da meta em 12 meses.
A mediana apontada no material indica alta de apenas 0,03% em julho, contra 0,16% em junho.
Em 12 meses, a inflação deve recuar de 4,64% para aproximadamente 4,40%.
Alimentos, vestuário e combustíveis ajudam, enquanto serviços continuam sendo o principal ponto de atenção.
Comentário: O número cheio pode ser bonito. O trader precisa olhar o miolo.
Serviços ainda pressionados podem impedir uma leitura completamente dovish, mesmo com headline próxima de zero.
O BC deixou setembro aberto; amanhã terá de mostrar o raciocínio.
O mercado buscará detalhes sobre três temas:
força do mercado de trabalho;
transmissão dos juros para a atividade;
preocupação com expectativas de inflação mais longas.
O Copom cortou a Selic para 14%, mas manteve o balanço de riscos assimétrico para cima.
Comentário: A ata pode validar ou frear a aposta de setembro.
Se reforçar desaceleração e desinflação, DI curto ganha combustível. Se insistir em expectativas e fiscal, o mercado pode devolver parte do fechamento.
BTG/Nexus mostra 47% a 44% no segundo turno.
Na rodada anterior, Lula aparecia com 46% e Flávio Bolsonaro com 45%.
Agora, o presidente registra 47% contra 44% do senador. As movimentações permanecem dentro da margem de erro do levantamento.
No primeiro turno estimulado, Lula aparece com 40% e Flávio com 35%.
Comentário: A diferença aumentou, mas a eleição continua competitiva.
Para os ativos, o ponto central será menos a pesquisa isolada e mais a evolução das propostas fiscais e econômicas de cada candidatura.
Arcabouço fiscal permanece, mas redução da jornada entra oficialmente no debate.
O programa registrado pela campanha prevê manutenção do arcabouço fiscal e compromisso com inflação sob controle.
Também inclui redução da jornada semanal para 40 horas, atuação pelo fim da escala 6x1 e criação do Ministério da Segurança Pública.
O documento ainda poderá sofrer alterações e detalhamentos durante a campanha.
Comentário: Para o mercado, o título da proposta importa menos que a conta.
Redução de jornada sem perda salarial pode ter impactos diferentes por setor, produtividade e intensidade de mão de obra. O preço começa quando aparecerem detalhes.
O resultado veio acima do esperado; a ausência de dividendo extraordinário falou mais alto.
Mesmo depois de forte lucro, Ebitda elevado e R$ 17,4 bilhões em remuneração aos acionistas, as ações da Petrobras caíram na sexta-feira.
O mercado reagiu à sinalização da diretoria de que um dividendo extraordinário neste ano é improvável.
Comentário: A lição é clássica: ação negocia expectativa, não retrospectiva.
O resultado foi forte. O que decepcionou foi aquilo que o mercado esperava receber depois dele.
Resultado ajustado ganha atenção em uma semana carregada de empresas.
A Embraer reportou lucro líquido ajustado de US$ 218,6 milhões no segundo trimestre.
Após o fechamento, a agenda inclui JBS, Itaúsa, Natura, Caixa Seguridade, Movida e São Martinho.
Nos próximos dias entram B3, Banco do Brasil, CSN, Suzano, Hapvida, Nubank, Braskem e outras grandes companhias.
Comentário: A temporada agora entra em sua fase de maior dispersão.
Com macro mais instável, balanço individual tende a falar mais alto cenário ideal para stock picking e perigoso para operar setor inteiro por narrativa.
DI curto: IPCA e ata do Copom decidem a força do trade de setembro.
DI longo: petróleo, fiscal e eleição continuam limitando o fechamento.
Dólar: payroll ajuda o real; CPI americano pode inverter a direção.
Petróleo: Ormuz sem solução mantém Brent com prêmio.
Petrobras: petróleo ajuda operação, mas dividendos seguem no preço.
Embraer: balanço abre o radar corporativo da semana.
Ibovespa: precisa recuperar depois da queda de 1,73% de sexta.
S&P 500/Nasdaq: payroll ajudou; inflação agora determina se o rali continua.
O payroll comprou tempo para o Fed, mas não matou o risco de alta. Ormuz continua fechado, o petróleo volta para US$ 84 e a inflação assume o comando da semana aqui e lá fora. No Brasil, IPCA e ata decidem se setembro vira corte de verdade ou continua apenas no preço. E, no meio disso, a eleição volta a aumentar o prêmio político. Nesta semana, o mercado não negocia tendência negocia confirmação.