Petróleo despenca, Copom entra no centro do jogo e eleição vira disputa ponto a ponto
A semana começa com uma combinação favorável para os ativos de risco: o Brent cai para perto de US$ 84, os Treasuries recuam e os futuros de Nova York avançam. O movimento ocorre após Donald Trump suspender novos ataques e indicar o início de negociações para um acordo com o Irã e a possível reabertura do Estreito de Ormuz.
O alívio externo encontra o Brasil na semana do Copom. O corte de 0,25 ponto percentual da Selic está praticamente contratado, mas a discussão relevante será a sinalização para setembro: continuação do ciclo ou pausa prolongada em 14%?
Na política, a nova pesquisa BTG Pactual/Nexus mostra Lula com 46% contra 45% de Flávio Bolsonaro no segundo turno. A diferença, que era de quatro pontos no levantamento anterior, caiu para apenas um ponto e recoloca o risco eleitoral diretamente na curva de juros e no câmbio.
O mercado retira prêmio de guerra antes de qualquer acordo concreto.
O Brent cai quase 7%, para a região de US$ 84 por barril, depois que Donald Trump cancelou uma nova rodada de ataques e afirmou que as negociações com o Irã começariam nesta segunda-feira.
O presidente americano também sinalizou que um entendimento sobre a reabertura do Estreito de Ormuz pode estar próximo. O Irã, porém, nega que esteja negociando diretamente com os Estados Unidos neste momento.
Teerã mantém conversas com Omã sobre um protocolo de navegação, enquanto ataques pontuais e ameaças de retaliação continuam ocorrendo na região.
Comentário: O mercado está comprando diplomacia antes de receber paz. A queda é relevante para inflação e juros, mas permanece vulnerável a qualquer manchete que mostre fracasso nas negociações ou nova interrupção física do transporte.
Mais oferta chega justamente quando o risco geopolítico começa a aliviar.
A Opep+ confirmou aumento de 188 mil barris por dia na produção a partir de setembro, concluindo a reversão dos cortes voluntários iniciada em 2023.
A decisão era amplamente esperada, mas ganha peso ao coincidir com a retomada das conversas diplomáticas.
O grupo não antecipou seus próximos passos para o quarto trimestre, preservando a opção de interromper a expansão da oferta caso o mercado volte a enfraquecer.
Comentário: O petróleo recebe pressão pelos dois lados: menor risco de guerra e maior oferta. Para voltar rapidamente aos US$ 90, o mercado provavelmente precisará de um novo choque geopolítico ou de sinais de que a demanda continua mais forte que o esperado.
A queda do petróleo alivia os yields, mas não apaga o alerta da ponta longa.
O rendimento do Treasury de dez anos recua mais de cinco pontos-base, para a região de 4,68%, acompanhando a queda da energia e a melhora do apetite por risco.
O movimento ocorre depois de o título de 30 anos alcançar a maior taxa em 19 anos, acima de 5,24%, em meio à percepção de que o Fed pode estar reagindo lentamente à inflação.
Três dirigentes defenderam uma alta imediata na última reunião e voltaram a pedir ação mais rápida para evitar medidas mais agressivas no futuro.
Comentário: O petróleo reduz a pressão inflacionária imediata. A dívida e a credibilidade continuam pressionando o longo prazo. A curva americana pode fechar hoje, mas a discussão sobre um Fed atrás da curva ainda está longe de terminar.
A decisão de agosto parece resolvida; o comunicado será o verdadeiro ativo.
A curva brasileira precifica praticamente 100% de probabilidade de redução de 0,25 ponto percentual da Selic, para 14% ao ano, na quarta-feira.
A convicção foi construída por:
IPCA-15 de apenas 0,06%;
IGP-M em forte deflação;
desaceleração gradual da atividade;
menor ritmo do emprego;
petróleo em queda;
ambiente externo mais favorável.
Entre os economistas, predomina a expectativa de corte acompanhado de uma sinalização cautelosa.
Comentário: Agosto deixou de ser o trade. A pergunta relevante é se o Copom deixará setembro aberto ou se usará o comunicado para contratar uma pausa prolongada.
Os dados permitem cortar; o fiscal e a eleição recomendam parar.
Parte do mercado acredita que a melhora disseminada da inflação e o esfriamento da economia justificam outro corte de 0,25 ponto em setembro.
A visão mais cautelosa destaca:
expectativas de inflação ainda acima da meta;
dívida pública crescente;
custo elevado de financiamento do governo;
volatilidade do petróleo;
aumento do ruído eleitoral.
A curva chegou à semana praticamente dividida entre manutenção e novo corte na reunião seguinte.
Comentário: O ônus da prova mudou. Quem defende a pausa precisa explicar por que interromper o ciclo com inflação corrente melhor. Quem defende mais cortes precisa mostrar que o fiscal e as expectativas não colocarão tudo a perder.
O Copom corta olhando menos para julho e mais para 2027 e 2028.
O Focus atualiza as projeções para inflação, PIB, câmbio e Selic.
O principal ponto de atenção será a distância entre as estimativas do mercado e as projeções do Banco Central para os horizontes mais longos.
Segundo o material de apoio, o BC trabalha com projeções mais benignas que a mediana dos economistas, especialmente para 2027 e 2028.
Comentário: A inflação do mês explica o corte. A inflação esperada para os próximos anos define até onde o ciclo pode continuar.
A vantagem do governo encolhe para apenas um ponto no segundo turno.
A pesquisa BTG Pactual/Nexus mostra Lula com 46% e Flávio Bolsonaro com 45% em eventual segundo turno.
No levantamento anterior, Lula tinha 47% e Flávio, 43%.
A redução da vantagem ocorre depois da oficialização das candidaturas, da tentativa de Flávio de reorganizar sua campanha e da dificuldade do governo em transformar a defesa da soberania em ampliação consistente de apoio eleitoral.
Comentário: Um ponto não representa liderança confortável. Representa eleição aberta. Para o mercado, pesquisas mais apertadas aumentam a sensibilidade da curva longa, do câmbio e das empresas domésticas às propostas econômicas dos candidatos.
O presidente busca ampliar a agenda além dos programas sociais.
O PT oficializou a candidatura de Lula à reeleição no domingo.
Em discurso, o presidente afirmou que não pretende ser lembrado apenas pelo Bolsa Família e defendeu investimentos em defesa, indústria, terras raras, minerais estratégicos e transição energética.
O plano de governo será apresentado no dia 16.
Comentário: O discurso tenta reposicionar a candidatura em crescimento, soberania e política industrial. O mercado vai querer saber quanto dessa agenda será financiado pelo setor privado e quanto exigirá gasto, subsídio ou expansão do crédito público.
A pesquisa melhora antes de a coalizão política existir.
PP e Republicanos indicam neutralidade na eleição presidencial, reduzindo a possibilidade de Tereza Cristina ser formalizada como vice de Flávio Bolsonaro neste momento.
A candidatura mantém força eleitoral, mas segue sem alianças relevantes com os principais partidos de centro.
O Republicanos oficializou Tarcísio de Freitas como candidato à reeleição em São Paulo, preservando sua estratégia estadual.
Comentário: Flávio mostrou que consegue reduzir a distância mesmo sem coalizão. O próximo teste será transformar intenção de voto em palanques, tempo político, capilaridade regional e uma agenda econômica organizada.
O Copom pode cortar a Selic; o Tesouro ainda paga quase 13% para se financiar.
A dívida bruta atingiu 81,9% do PIB em junho, maior nível em mais de cinco anos.
O custo médio da Dívida Pública Federal chegou a 12,68% ao ano, maior patamar desde setembro de 2016.
Diante do prêmio elevado exigido nos títulos longos, o Tesouro tem ampliado a participação de papéis atrelados à Selic, evitando validar taxas ainda mais altas nos prefixados.
Comentário: Cortar a Selic reduz o custo marginal da dívida. Não resolve sozinho a trajetória. Sem controle de gastos e melhora do resultado primário, o mercado continuará exigindo prêmio elevado para financiar o governo por prazos mais longos.
Estados Unidos e Japão entram juntos no câmbio pela primeira vez em 15 anos.
O iene voltou a avançar após os governos dos Estados Unidos e do Japão confirmarem uma intervenção coordenada para sustentar a moeda.
As autoridades afirmaram que poderão agir novamente caso a volatilidade retorne.
O movimento reabre a discussão sobre a redução de posições financiadas em iene, usadas por investidores para comprar ativos de maior rendimento em outros países.
Comentário: Uma valorização abrupta do iene pode desmontar carry trades em escala global. Para o Brasil, isso significa que uma moeda com juros altos pode sofrer mesmo sem notícia doméstica, caso investidores precisem reduzir risco e recomprar ienes.
O pregão volta depois de uma pane que deixou o investidor sem referência.
Uma falha técnica atrasou em mais de duas horas a abertura dos negócios na sexta-feira.
A B3 negou ataque hacker e atribuiu o problema a uma intercorrência operacional no ambiente de pós-negociação.
O episódio reduziu o volume, afetou a formação de preços e ampliou a insegurança entre investidores e participantes do mercado.
Comentário: Risco tecnológico também é risco de mercado. Para o trader, a lição é objetiva: plataforma, conexão e ordens de proteção não eliminam o risco de a própria infraestrutura da Bolsa ficar indisponível.
A oferta da matriz apagou em um dia a queda provocada pelo balanço.
As units do Santander Brasil avançaram 13,35% na sexta-feira depois da oferta da controladora espanhola para adquirir os papéis restantes em circulação.
O movimento zerou a queda acumulada nos dois pregões posteriores ao resultado trimestral.
Apesar do prêmio oferecido, a operação pode reduzir ainda mais a liquidez do papel.
Comentário: Fundamento define valor. Evento corporativo define preço no curto prazo. Quem estava vendido olhando apenas para o balanço descobriu que risco de OPA também precisa entrar no gerenciamento da posição.
Problemas em uma grande trader física pressionam a commodity.
O minério de ferro caiu ao menor nível em mais de um ano diante de preocupações com a Radiant World, relevante participante do mercado físico.
Segundo informações divulgadas, a empresa teria apresentado documentos inválidos a instituições financeiras.
Além do risco específico, os PMIs industriais mais fracos da China voltam a levantar dúvidas sobre a demanda por aço e minério.
Comentário: Para Vale e siderúrgicas, o petróleo deixa de ser o único driver externo. A combinação de China mais fraca, minério em queda e risco de crédito no mercado físico pode pressionar preços realizados e expectativas de resultado.
Depois da tecnologia americana, o foco migra para bancos e Petrobras.
A semana concentra resultados de grandes empresas brasileiras:
Segunda: BB Seguridade, ISA Energia e Marcopolo;
Terça: Itaú, Gerdau, Prio, RD Saúde, GPA e C&A;
Quarta: Bradesco, Klabin, Copel, Engie, Inter, Totvs e Smart Fit;
Quinta: Petrobras, Localiza, Renner, Magazine Luiza, Assaí, Hypera e Minerva;
Sexta: Porto.
O principal destaque será a Petrobras, que divulga resultado em um ambiente de elevada volatilidade do petróleo.
Comentário: Com o Copom amplamente precificado, os balanços podem produzir movimentos maiores que a própria decisão de juros. O mercado continuará premiando caixa, margem e disciplina de capital não apenas crescimento de receita.
Tenda
Foi incluída na primeira prévia da carteira do Ibovespa para o período de setembro a dezembro.
PetroReconcavo
Foi retirada da primeira prévia do índice.
CSN
Teve o rating rebaixado pela Fitch para CCC+, com observação negativa, diante da alavancagem e do risco de refinanciamento.
Braskem
Informou que ainda não existe definição sobre eventual reestruturação financeira.
Petrobras
Elevou o preço do querosene de aviação em 1,9% a partir de agosto.
Natura
Acionistas solicitaram assembleias para discutir dispensa de OPA e mudanças no conselho.
Azul
O Cade aprovou a participação da American Airlines na companhia.
Brasil
08h25 Boletim Focus
10h00 PMI industrial de julho
11h30 Leilão de swap cambial
Após o fechamento BB Seguridade, ISA Energia e Marcopolo
Semana
Terça-feira: produção industrial brasileira e JOLTS nos EUA
Quarta-feira: decisão do Copom, ADP e ISM de serviços
Quinta-feira: balança comercial brasileira
Sexta-feira: payroll americano e dados fiscais domésticos
A abertura combina alívio externo com aumento do risco eleitoral:
Petróleo: queda forte ajuda juros e cíclicas, mas pressiona Petrobras.
DI curto: corte do Copom integralmente precificado.
DI longo: pesquisa eleitoral e dívida pública limitam o fechamento.
Dólar: Treasuries ajudam o real; petróleo menor retira parte do suporte comercial.
Ibovespa: varejo e construção podem se beneficiar dos juros; petróleo e minério pesam nas commodities.
Petrobras: perde apoio do Brent, mas o balanço da semana pode limitar a pressão.
Tenda: entrada na prévia do índice pode gerar fluxo.
CSN: rebaixamento amplia o risco sobre dívida e refinanciamento.
O petróleo despenca, os juros respiram e o Copom recebe o cenário ideal para cortar. Mas a eleição acaba de virar uma disputa de um ponto, a dívida pública continua cara e o minério abre uma nova frente de risco. Para o trader, o recado é direto: o exterior entrega alívio enquanto política e fiscal impedem o Brasil de transformar esse alívio em tranquilidade.